No nosso mundo ainda cartesiano, binário e maniqueísta estamos sempre compartimentando e rotulando as coisas.
E, como sempre, viajo no meu “achismo sociológico” para divagar sobre o “alternativo” e o “convencional”, neste meu espaço de transbordamentos e maquinações.
Estamos acostumados a nos enquadrarmos em parâmetros, sejam familiares, educacionais, de saúde, profissionais, de sucesso, de relacionamentos, etc.
O tal “mainstream” estabelece o que é o “padrão”, e o que serve para a maioria num determinado lugar e num determinado momento, baseado em costumes, pesquisas científicas, formatações e pressões econômicas, religiões e orientações ideológicas, com pequenos balanceamentos.
E o elemento que consegue manter essa Matrix é o medo. Sair fora do padrão é cair no buraco negro dos julgamentos e da exclusão. E sim, correr riscos.
Maioria, no entanto, não é todo mundo e o o limiar entre o convencional e o alternativo atualmente é muito tênue.
Vivemos hoje entre muitas tribos, o alternativo está pulverizado, em função também da internet e das redes sociais que romperam muitos diques e dão voz a todo tipo de identidade. E nelas acontecem também as reações contrárias, os embates e as patrulhas.
Inadequação é uma condição humana, uns tem mais mais consciência dela outros menos, mas precisamos da aceitação do outro, e nos enquadramos. Neste sentido,”sair do armário” vai além de assumir orientações sexuais, significa se assumir com “a dor e a delícia de ser o que é” (Caetano). Ser é radical. Subversivo até.
Muita coisa que há pouco tempo era considerado “alternativo” também vai sendo absorvido pelo sistema, no momento em que recebe a chancela científica, de líderes, dos equipamentos modernos que “enxergam” seus benefícios.
Um exemplo é a meditação.
Esta prática milenar alcançou o ocidente e era aqui coisa de hyppie, praticantes de yoga e dos metidos a Buda. Hoje, exames de imagem identificam o que acontece no nosso cérebro com a prática regular e ela já é prescrita, indicada em várias situações e usada até em empresas. A gente precisa destas autorizações.
Às vezes também o “alternativo” surge de situações de iniquidade, ou por contingências de crise, em que determinados grupos se formam fora do estabelecido para se fortalecer e romper com o que os oprime, ou até para sobreviver.
O alternativo, assim, pressupõe experimentação ou resgate, confronto às vezes, um quê de saudável rebeldia, sair de uma bolha, arriscar, a despeito das orientações dos nossos tutores institucionais ou familiares. Testar novas organizações, novas formas de atuação no mundo, novas formas de se relacionar, aprender vivendo, validado também pela ciência, nem tudo nele é só esoterismo.
E isso, que era raro e pontual, vem acontecendo cada vez mais nesta era líquida (ou de Aquário, como dizem os “alternativos”). E depois costuma ser sistematizado e/ou “comprado” para virar o “padrão”.
E assim caminha a humanidade, entre o conforto dos sistemas colocados e a ânsia ou a necessidade de experimentação e de ruptura, “porque mistério sempre há de pintar por aí” (Gil).