Vazios

(Resgatando este texto. Pra ficar registrado por aqui e porque sim, tá valendo…)

 

Gosto de ver espaços vazios.

Uma prateleira vazia no armário ou na despensa, um espaço no estômago, no coração, na mente.

(Sei que soa hipócrita ou demagógico partindo de quem vive no excesso, diante dos que sofrem com privações de toda ordem e da visão religiosa que temos de tudo, mas não é de sociologia que trato). Feito o necessário parêntese…

Os espaços cheios aceitam qualquer coisa. Depois da feijoada, sempre tem o nocaute com o pavê. Tudo é apenas mais um. Mais uma roupa, mais um objeto, mais um pensamento destrutivo, mais um alimento que pesa, mais um lixo para nosso coração reciclar.

O acúmulo de qualquer coisa pode dar a falsa sensação de segurança, mas muitas vezes embaça as nossas percepções, nos agarramos no medo da falta e nos privamos e ao outro da plenitude de ter e ser.

Jogamos algumas migalhas fora, fazemos algumas concessões buscando um conforto moral, mas internamente ainda estamos apegados a velhas coisas, ideias, sentimentos e convicções.

Saturação é a  palavra do momento: de informação e de opiniões, que às vezes nos alienam de nós mesmos, das nossas próprias formulações. Das “relações” em quantidade, que só aumentam nossa solidão. Do ambiente virtual, que bloqueia nossa capacidade de fazermos companhia a nós mesmos. Das coisas que como uma droga nos dopam ou nos dão um prazer cada vez mais fugaz. De alimentos que viciam e deturpam nosso paladar. De modinhas, adesões e rejeições sem critério. De re-ações que impedem ações construtivas.

Nossa mente e nosso coração podem ficar como um armário ou uma despensa abarrotada: com princípios e crenças que não nos servem mais, ou nunca serviram e a gente acreditava neles mesmo assim.

Com sentimentos vencidos que não são descartados e causam bolor mental e impedem que desejos esquecidos sejam tirados do fundo das gavetas.

O vazio seleciona. Acolhe com mais atenção. Tem a espera, a expectativa, a escolha, o cuidado. Pra ter espaço vazio, há que esvaziar. Selecionar o que fica e o que vai. E deixar ir. E acolher o que ficar. Dar lugar de destaque, mesmo que não seja definitivo. Nada é definitivo.

Ao preencher, podemos ser mais seletivos. Olhar com a visão de expectador. O que aquilo me causa? Preciso? Quero? Combina? Serve? (pra mim ou para os outros?) Bate bem? Está na hora?

O vazio nem sempre é falta, mesmo porque “um copo vazio está cheio de ar”. (Gil). Um ambiente arejado é mais salutar, assim como uma mente oxigenada tem mais lucidez e inspiração. Há vazios que preenchem. Sem pesar.

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