Até minha geração: pai, mãe, filhos, jornal impresso de manhã, jornal televisionado e novelas à noite. Escola, vestibular e curso superior pra uns, linha de montagem, balcão de comércio e serviços domésticos pra outros, governo, empresas, cidadãos. Missa aos domingos. O “exterior” era um privilégio, tanto de acesso como de notícia nas duas direções. Cada um aparentemente no seu quadrado, recalques, injustiças e hipocrisias mil, mas tudo numa certa “ordem”. A realidade urbana como nas propagandas de margarina e o interior distante e caricato. Sem romantismo e nostalgia que não é hora.
Anos depois, historicamente pouco tempo, a impressão que tenho hoje é que éramos como uma correção de formigas. Fazendo, indo, cumprindo, desenvolvendo e veio o boom tecnológico atropelando, e consequentemente a globalização, a explosão demográfica e a informação e cutucou o formigueiro e foi formiga pra todo lado.
A rígida estratificação social e burocrática, que não se rompeu nem com o movimento hippie, não deu conta de acompanhar a rapidez destes eventos e ainda andamos “catando cavaco”.
Pessoas saindo dos seus quadrados, famílias com outras configurações, corporações virando governos, governos virando meros balcões de negócios, cidadãos virando empresas, o conhecimento saindo do controle dos mestres.
Ao mesmo tempo percebo ainda uma tentativa de colocar o formigueiro na linha. Calma aí: “Isto ainda é função do Estado, isto é do privado, isto é do cidadão. E muita gente tentando fiscalizar, e fiscal do fiscal pra não ter corrupção. Este cidadão pode vir até aqui, este, até ali, este acolá. Você, fique quieto aí.”
-Liberdade individual acima de tudo, mas vamos regulamentar algumas coisas senão vira bagunça. Ninguém quer obedecer mais nada…
Mas quem? Quem é mesmo o governo? Facebook? Whatshapp? Google? Congresso, Presidência? Judiciário? Igrejas? Corporações? Milicias? Traficantes? Imprensa?
Tudo fugiu ao controle e se misturou. O “defaut” não serve mais. Mas deixou uma galera ressentida, que não aprendeu a lidar com diversidade, e saudosista de sistemas autoritários, de enquadramento de classes e gêneros e até de escravidão. De outro lado, os x,y, z, ansiosos com as diversas possibilidades que se abriram, administrando o FOMO (fear of missing out)
O formigueiro agora se espalhou. E a gente com nossos sprays tentando dizimar os incômodos e aqueles que incomodam, ou esperando o salvador que vai colocar ordem de novo, resgatar as instituições falidas e enquadrar o privado, o cidadão e as fronteiras geográficas. Só que não.
E dá-lhe rivotril, ansiolíticos e consumo pra nos entorpecer porque a seco não tá dando.
Esta pretensiosa, zero científica e limitada metáfora que parece carregada de pessimismo é apenas um retrato muito pessoal do momento e é preciso levar em conta, por óbvio, que, ao contrário das formigas, somos seres inteligentes, criativos, sonhadores e empáticos, podemos nos reorganizar de outras formas se não ficarmos apegados em fórmulas, teorias e preconceitos vencidos.
E isto já está acontecendo.
Fato é que reacionarismo não resolve nem convém. Façamos cada um o nosso melhor, com o mínimo de consciência porque autorresponsabilidade, empatia, compassividade e afeto serão fundamentais. Sair do padrão bélico e de recompensas e punições. Dizer sim pra vida, a nossa, a do próximo, a do planeta, pelo menos até quando robôs e inteligências artificiais que já participam e decidem eleições, passarem mesmo a dominar ou enquanto a Terra aguentar.