
Assunto polêmico, e neste espaço, como sempre, devaneio rasamente…
Todos os dias reivindicamos leis novas que encarceram pessoas.
Somos pródigos em reivindicar e editar leis. Cumpri-las, nem tanto…
Estatísticas mostram sermos o país com uma das maiores populações carcerárias do mundo e um índice de violência crescente, emparelhado com regiões em guerra. Logo…
O perfil dos detentos, em relação a condição econômica, cor, gênero, idade, e o esforço mínimo de recuperação, tem muito a dizer de nós enquanto sociedade.
Dados à disposição na internet.
Só isso daria pano pra manga em reflexões de como enxugamos gelo nesta área e quanto tem de hipocrisia no discurso anti violência. No fundo sabemos que apenas vender armas e encarcerar não resolve, mas a gente se acostumou com soluções imediatistas e a tampar nosso sol escaldante com a peneira.
Fazer leis e esta onda punitivista atende a clamores e virou lava mãos, mas não encaramos de frente temas como a descriminalização das drogas.
Há ainda os civilmente encarcerados: aqueles que, por condições econômicas não conseguem circular nas cidades, seja pelo preço do transporte público, seja pelo preço de ingresso nos equipamentos de lazer, ou por discriminação mesmo. (Rolezinho nos shoppings, lembram?)
O Prefeito de Belo Horizonte, Kalil, com seu jeito direto, confirma isso ao dizer que estádio de futebol é pra rico e pobre vê jogo em casa, pela TV. Os times tem que dar lucro, no mundo é assim, blá, blá,blá.
Acrescento, cinema é caro, logo, tem que ver filme pirata em casa, praças e parques não estão disponíveis em todo lugar, Estado não tem dinheiro, o privado não tem que fazer “caridade”, e temos assim um amplo e complexo debate que costuma não chegar a lugar nenhum, já que ainda não sabemos que país queremos construir.
Muitos destes “encarcerados”, fazendo a tal conta custo/benefício, devem achar mais barato pagar um dízimo na igreja ao lado e ter um lugar pra frequentar, se anestesiar, encontrar do que gastar quase 50 reais para cada rolê só de condução.
Outros estão se organizando pra quebrar esta segregação de outras formas. Leva tempo e há reação.
Não tô “passando pano” pra nada nem ninguém, isso não justifica tudo, claro. O buraco é mais embaixo, e tem muitas variáveis envoltas nesta babel inadministrável.
Da mesma forma que existe no sistema prisional a cadeia comum e a cadeia especial para os de curso superior, os privilegiados, onde me incluo, são os encarcerados civis de condomínios, grades, carros, sistemas de segurança. Pessoas são ameaça ou entregadores. Pedimos comida pelo aplicativo, vamos e voltamos de aplicativo, compramos pela internet, exercitamos “in door” na maioria das vezes, nos comunicamos pelos aplicativos. Frequentamos plays de prédios, clubes, resorts, confrarias e feirinhas. E vivemos na nossa bolha, acompanhados de uma cerveja artesanal.
Há um movimento de ocupação de espaços públicos, seja pela onda da bike, seja por coletivos e eventos em parques e praças, aniversários até. Incipientes ainda.
Mas o cárcere começa dentro de nós, com nossos medos, nossas crenças limitantes, preconceitos, nossa ambição, nossa dificuldade de nos relacionar com o diferente, nosso espírito bélico já arraigado. A falta da educação ou a educação segregacionista. E um sistema todo ele inícuo mesmo.
Tudo isso são grades mentais, sociais, alimentadas pela mídia alarmista e sensacionalista e, citando o querido e já saudoso Boechat, que era do meio:
” A imprensa noticia vandalismo, pois gera medo. O medo faz com que as pessoas fiquem em casa. E pessoas com medo não mudam o país! “
Nem coisa alguma…
Lena, não tem comentário só concordância …
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