Bastidores importam

Sabe aquelas tarefas que a gente só costuma por reparo quando não são feitas ou quando são mal feitas? Tipo louça suja e atendimentos em geral?

Sabe aquelas tarefas que consideramos “menores” porque originalmente sempre foram feitas por escravos e ainda hoje tem cor e gênero?

Sabe aquelas tarefas que não podem ser interrompidas porque tudo entra em colapso e ainda assim a gente desdenha e até menospreza?

Nossa vida burguesa de consumidores, recebedores de deliverys, frequentadores de parques, bares, aeroportos, alimentos bons, depende de uma rede de serviços de “menos valia” e muitas vezes invisível aos nossos olhos individualistas.

A maioria das pessoas da minha geração foi ou mandou os filhos para intercâmbios antes do segundo grau. Ouvia muito isso: vai ser ótimo para fulano, além de aprender a língua, vai se virar, fazer a própria cama. Trabalhar lá fora de faxineiro, garçom, balconista, baby sister era chic. Chegavam aqui, e tudo voltava “ao normal”. A doméstica ou a mãe fazendo tudo em casa e eles “cuidando da vida” para serem alguém no futuro.
Temo que hoje a expressão ser bem sucedido careça de uma revisão. Não se trata apenas de chegar lá, ocupar um cargo importante, ser CEO, assessor,  juiz, promotor, profissional liberal, um grande personagem.

Seremos grandes se dermos conta das coisas miúdas e mundanas. Hoje. Todo dia.

Cuidar da vida atualmente implica em cuidar um pouco do mundo também. Seu lixo não sumiu porque o lixeiro o recolheu. Os inúmeros produtos de limpeza que você escolhe comprar impactam na qualidade da água. A roupa baratinha que você achou numa banca ou numa loja de fast fashion ou comprou sem precisar teve uma exploração de mão de obra, pra não dizer trabalho escravo. As pessoas que prestam serviço pra você gastam horas no ir e vir porque o lugar delas não é perto da gente de bem.

Vivemos num sistema de apartheids, esta é a crua realidade mascarada de liberal, capitalista, meritocrata, religiosa, familiar, ou qualquer rótulo que se tente dar . Essa intolerância generalizada que estamos assistindo explicitamente hoje, foi bem construída em toda nossa formação.

Nenhum rótulo cabe nesta panacéia que segrega, elimina, exclui, depreda por conta da nossa preguiça imediatista, nossa fome infinita de tudo, nossa aclamada “liberdade de escolha”.

Não basta cumprimentar o porteiro, como dizem por aí. Isso é o básico do básico da boa educação. Precisamos avançar. Olhar todo mundo de forma igual, sem anular a diversidade de culturas, entendimentos, origens. Incluir. Misturar. Compreender e ter empatia pelo menos.

Podiámos começar tirando os phones de ouvido enquanto andamos pelas ruas, ou andar mais pelas ruas e observar. Quem faz o quê, como faz, sorrir pra elas, agradecer mesmo que internamente até um banheiro limpo que encontramos pelo caminho. Prestar atenção nas gentes no nosso cotidiano.

Valorizar todo trabalho que é feito em casa, seja por quem for e incluir as crianças. Tornar “normal” cuidar das tarefas domésticas, colocar a roupa no cesto, tirar o prato da mesa, lavar a louça que sujar, descascar um legume, e molhar uma planta. Sair na rua e conhecer o entorno, de onde vem as coisas que nos dão conforto e não só sentar na cadeirinha do carro e apreciar a paisagem até chegar no destino.

São gerações de classe média, a minha inclusive, carregadas pelas empregadas domésticas e pais zelosos com jornadas triplas, ok, e agora descobrimos o “pronto”, o descartável, o aplicativo que leva e traz “baratinho” a gente e qualquer coisa que quisermos e seguimos com as “mãos e olhos virgens e limpos”, ok também, mas não podemos mais ignorar os bastidores, a precarização, a produção de lixo, o desperdício e ficarmos só ocupados com o macro, com as grandes transformações, com os grandes indicadores, com as lambanças dos políticos e uma redenção que nunca chega porque na realidade ela não nos convém.

Tudo é importante, claro. Mas vivemos com a mente no futuro e quase não prestamos atenção no agora.

“Rejubilar-se com as coisas comuns não é sentimental ou trivial. Na realidade, exige coragem”. Pena Chodron

“A gente mora no agora” .(Paulo Miklos)

“como estao caros” alguém ou os jornais dizem
ou
Que lindos! quem será que os plantou? Quem arrumou esta banca?

4 comentários em “Bastidores importam

    1. Fico sempre feliz de saber que você acompanha meus devaneios. Acho que vamos melhorando sim. O processo civilizatório é lento, nosso tempo aqui é apenas uma centelha, e ele tem idas e vindas, avanços e retrocessos. Não acho, modestamente que somos devedores, somos e fazemos o que damos conta e podemos sempre melhorar somente. bj

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