
Sou a louca dos potes de vidro usados. Guardo pra n finalidades, principalmente para provisionar comidas, ingredientes ou temperos.
Mas eles vem com rótulos. Tem o vidro do palmito, da azeitona, do molho de tomate. Tirar o rótulo é uma tarefa chata embora tutoriais digam que não. E às vezes ainda fica a cola.
Enfim, são difíceis de abandonar. Mas com algum esforço o vidro da azeitona fica livre, transparente, inodoro e pronto pra outro uso.
Entre nós mortais, também existem rótulos de todo tipo e bem grudentos: pessoais, familiares, rótulos sociais, relacionais, políticos (agora então, temos um dicionário inteiro deles ), econômicos, geográficos, geracionais, os da moda.
Todos nós rotulamos e somos rotulados ao longo da vida. As crianças desde cedo já tem seu perfil delineado e um traço de personalidade às vezes é tão reforçado que vira uma identidade, uma tatuagem que a pessoa passa a carregar.
Uma vez que incorporamos os rótulos que nos impõe ou nós mesmos nos colocamos, tem todo um trabalho árduo de corresponder a eles e não desapontar. E um maior ainda se quisermos nos livrar deles, embora haja quem curta e estimule um rótulo. Tem uns até engracadinhos e inofensivos.
Quando tomamos uma atitude que contraria o que esperam de nós vem a surpresa, a crítica ou admiração. Fulana nadou fora da raia, saiu do seu quadrado. Que coragem! Ou, como assim, que absurdo! Faz parte.
Podemos carregar o crachá da distração, da ansiedade, do devagar quase parando, da vítima, do algoz, da limitação, do esforçado, do difícil, da esperteza, da calma, da boazinha, do estopim curto, do posicionamento ideológico, das crenças familiares, e passar a vida toda com a síndrome de Grabriela: “eu nasci assim, eu cresci assim, e sou mesmo assim, vou ser sempre assim…”
Rótulos podem ser confortáveis mas também limitantes e aprisionadores, identitários ou segregadores. E ainda criar esteriótipos e estigmas.
Mas é bom saber ou ao menos imaginar que o vidro de palmito de hoje pode virar um pote de compota amanhã, um executivo que vemos ou imaginamos sempre sisudo e estressado, pode nos surpreender sendo ao mesmo tempo um palhaço brincalhão. E por aí vai.
Nossa alma realmente não é pequena…E é reciclável como os potes de vidro.

Ai, Lena , tento que eu queria que os “potes” que temos hoje na política fossem trocados, incluindo os rótulos e , principalmente, os conteúdos. !!!!!
CurtirCurtir
Amo vc,, Leninha! Que honra poder compartilhar histórias, experiências, frustrações e alegrias e entender exatamente os seus….os nossos sentimentos, q vc magistralmente transforma em palavras! Obrigada, amiga!! ♥️💕
CurtirCurtido por 1 pessoa