Há que se ter cuidado para falar sobre este tema. Não medo, cuidado. Também não por melindres alheios, não uso este espaço para ofender ninguém, mas porque é espinhoso, íntimo e pessoal, ao mesmo tempo social, ancestral, é pauta constante e porque pipocam especialistas e linhas de entendimento dependendo dos interesses envolvidos.
Superficialmente falando, sabemos que todos temos as faces feminina e masculina, mas isso sempre foi muito mal resolvido entre nós e muito mais hoje, penso. Há muitos grupos sendo formados pra tentar lidar com a questão mas romper com a carcaça patriarcal não é tarefa fácil, nem para homens que querem se ver inteiros.

Me vejo hoje em meio ao furacão da menopausa e a minha percepção deste momento tão complexo pode ser representada por este meme de John Travolta.
Ir pra onde, fazer o quê, ninguém me entende, deveria estar sábia e bem resolvida a esta altura, mas me comporto como uma adolescente insegura. Parece vitimismo mas todas as fases da vida da mulher parecem só reforçar a percepção que o mundo masculino tem de nós de que somos sempre as mesmas histéricas e chiliquentas de outras eras, que chegavam a ser internadas como loucas.
A diferença é que hoje temos as pílulas que nos domesticam ou podemos assumir nossa versão bruxa pagando um preço alto. A incompreensão sobre oscilações hormonais, nuances, fases e diferenças do universo feminino persistem, e os homens teimam em não acessar o deles. Talvez facilitasse um pouco pra todo mundo. Há um canal se abrindo, mas a jornada ainda será longa…
Enquanto isso…
A confusão só aumenta quanto mais opções dizem nos oferecer. Menstruar ou nunca mais menstruar, ter ou não ter filhos, tomar ou não tomar hormônios e anticoncepcionais, sacralizar os ciclos ou digladiar com eles, congelar óvulos, exames preventivos constantes, tudo isso com muitos efeitos colaterais, principamente emocionais. E isso são só exemplos.
Li um texto de Mariana Varella (editora do portal de Drauzio Varella) em que ela diz que com o aumento da longevidade, as mulheres podem hoje conviver em média até 25 anos com os incômodos da menopausa. Segundo ela, resumindo, vamos ter que nos virar com eles porque a ciência não se ocupa muito com as questões femininas.
A proposito, alguém tem notícia do anticoncepcional masculino?
Junte-se a isso o fato de que nossa medicina hoje nos esquarteja e para cada parte, um especialista se manisfesta.
E as cobranças estéticas e as patrulhas seguem firmes, entre nós mesmas, porque podemos estar um trapo mas deixar a peteca e tudo o que a gravidade põe abaixo, cair, jamais. Tem toda uma indústria de cosméticos, treinos e tratamentos, além das redes sociais nos bombardeando com opções e comparações, prometendo nos “empoderar”. Será? Estão todos mesmo pensando na nossa saúde e bem estar? Como separar o joio do trigo?
O que cada uma de nós sabe realmente de si?
O tal empoderamento nos colocou também no ringue e na vibe bélica masculina de chamar pra briga, de “lute como”… Claro que diante de tanto abuso e violência contra a mulher, é compreensível o enfrentamento, mas onde chegaremos com isso?
É tudo muito extenuante, para dizer o mínimo.
Feito o desabafo.
Avançamos, claro que avançamos, mas as veias do feminino, que não dizem respeito somente às mulheres, seguem e seguirão abertas ainda por muito tempo…