Compostura: ” modo de ser, de estar, de agir, esp. o que revela sobriedade, educação, comedimento” .
Ouvia de vez em quando da minha mãe esta palavra antiga e sempre achei chic.
Ela sempre me vem à cabeça quando percebo que a gente hoje não faz uso dela e do seu significado.
Vivemos tempos paradoxais no sentido de que nos censuramos em algumas situações e exercemos uma liberdade sem limites (até da educação básica), em outras.
Explico. No ambiente familiar, pelo menos na minha, criou-se o código de não se falar de política nos raros encontros que acontecem. E nas redes sociais, nos permitimos dizer qualquer coisa, compartilhar qualquer coisa, sem ter que olhar nos olhos das tias, dos irmãos, dos primos e sem se dar ao trabalho de estabelecer um diálogo.
Vi num programa de entrevista, Ronaldo Lemos (advogado, pesquisador especializado em tecnologia), definir bem o que ocorre na internet. Não há mais a boa e velha dialética (tese, antítese, conclusão). Cada grupo quer apenas marcar território, fincar suas bandeiras e arregimentar apoiadores nem que pra isso seja necessário fazer uso de robôs, fake news, contas falsas, teorias conspiratórias, etc.
A tal da polarização extrapolou a questão partidária e já fez metástase nas importantes discussões ambientais, na ciência, na cultura, nas condutas morais.
Confesso que eu mesma não estou sabendo lidar. A complexidade da nossa realidade, o ambiente de patrulha generalizado, a sensação de estarmos andando em ovos e de que a qualquer momento o caldo vai entornar, a obrigação de tomar partido de uma causa sem poder fazer questionamentos, o medo de rompimentos definitivos tem me deixado paralisada.
Há os que se refugiam na religião e só reproduzem o que seu líder manda. Há os que se submetem cegamente a mitos e não conseguem fazer concessões nem abrir espaço para ambientes mais horizontais, inovadores e agregadores. Há fanáticos por todos os lados, há os agressivos que partem para as vias de fato, há os que teimam em não se atualizar e repetem mantras antigos que não cabem mais.
Passamos grande parte do tempo desmentindo notícias, apontando dedo e procurando culpados. E os problemas se acumulando.
O lema é: “meu mundo, minhas regras”. O outro que se dane. E ela vale para todos, desde os mais reacionários, os moderados e os “descolados”.
E vamos ficando em bolhas, isolados, depressivos, angustiados, porque no fundo todos sofremos, todos queremos vislumbrar um horizonte mais redentor e não viver como afogados buscando ar e ao mesmo tempo chafurdados em inúmeras discussões estéreis, porque não queremos solução, queremos ter razão.
E me vem a pergunta: isso vai passar?
E novamente uso uma expressão da minha mãe: sentei na curva…
Recomendo a leitura do texto da Eliane Brum:
https://brasil.elpais.com/brasil/2019/08/01/opinion/1564661044_448590.html