Eu julgo, tu julgas…nós julgamos

Tendo trabalhado durante muitos anos num Tribunal e manuseando os processos, lendo peças e sentenças aos milhares que chegavam por lá, nunca deixei de me impressionar como alguém distante dos envolvidos, conseguia decidir sobre seus negócios, suas relações e sua liberdade. Óbvio que vivemos num sistema de códigos, leis hierarquicamente organizadas, além do aparato institucional do qual fazem parte os chamados “operadores do direito”, que, em tese, são treinados, ou deveriam ser, pra lidar com tudo isso da forma mais equânime possível.

Mas julgar, acredito, vai além de conhecer leis e hermenêutica. Tem que ter vivência, empatia e uma boa bagagem filosófica e humanista, que, vamos combinar, anda bem escassa atualmente né?

Se a complexidade da nossa vida exige muitas vezes a intervenção de um estranho para mediar um conflito, ao mesmo tempo a gente nota hoje uma incapacidade de se buscar autonomamente a resolução de muitas pendengas por conta de pouca disposição em negociar, ceder ou por má fé mesmo.

Além disso, vejo a Justiça sendo usada e se colocando menos como elemento apaziguador e mais como instrumento de poder.

Em última análise, todo julgamento é falho, seja por manipulações diversas, pelas imperfeições do sistema, falta de preparo, rapidez com que as relações estão se transformando, mas este foi o meio que encontramos até agora de “resolver” conflitos nesse nosso capenga caminhar. É aquela história, “ruim com ela, pior sem ela”.

Há muito o que evoluir pra Justiça fazer jus ao nome e deixar de ser um fim em si mesmo e se transformar realmente numa uma alavanca civilizatória. Mas como toda instituição ela reflete o que somos como seres e sociedade.

Me impressiona também a capacidade que criamos hoje de julgar tudo o que acontece de forma instantânea com um único post, tweet ou like.

Por uma manchete de jornal. ou uma mensagem que recebemos no whatsapp, às vezes sem nem ler o conteúdo ou checar a veracidade, juntamos lé com cré e damos um veredito. É praticamente um tribunal de exceção, sem contraditório, sem provas, e condenamos ou absolvemos, pessoas, situações, de forma sumária, sem direito a réplica, tréplica ou recurso.

Julgamos muitas vezes sem nem sermos convocados, simplesmente porque sim, porque entendemos que a vida alheia nos diz respeito ou porque achamos que temos conhecimento de causa sobre tudo.

Trazemos eventos da vida real para o ambiente digital, ou direto do digital mesmo, julgamos e depois os envolvidos cumprem suas “penas” que podem ser linchamentos, bloqueios, cancelamentos, ostracismo, demissões e as penas silenciosas como uma depressão ou outro distúrbio psicológico. Pensando bem, até a overdose de likes e seguidores pode acabar sendo uma condenação às rédeas das redes.

O rigor com que tratamos o externo, trazemos para nós, ou o contrário, não sei.

Podemos também ser implacáveis juízes de nós mesmos, das expectativas que criamos e às vezes não cumprimos, das nossas vulnerabilidades, das metas não alcançadas. E as culpas que carregamos são nossas punições.

Se não isso, talvez julgar o tempo todo as outras pessoas e situações possa ser uma forma de não lidarmos com os nossos próprios processos, que muitas vezes insistimos em engavetar.

Queremos controlar o externo nem que seja validando algo ou alguém, ou buscando validação, para tentarmos ficar bem. É mais fácil decidir sobre a vida alheia do que sobre a nossa própria.

Nos últimos tempos tenho tentado ao menos prestar atenção nisso. Nos momentos que julgo alguém, por hábito mesmo, nos momentos em que me condeno, nos momentos em que leio ou assisto algo e já vou tirando conclusões precipitadas. É bem complicado e um exercício de humildade.

Analisar os fatos é necessário e pode ser enriquecedor desde que haja alguma troca e abertura e não imposição das nossas crenças, preconceitos e essa tão intensa necessidade atual de se ter razão e lacrar, mesmo quando ninguém pergunta nossa opinião.

Tirar esse fardo ou pegar mais leve pode ser um alívio pra nós além de aliviar a vida dos outros também.

Talvez aquele velho ditado “de médico e louco todo mundo tem um pouco” tenha que ser atualizado para “de médico, louco e juiz todos temos um pouco”.