O mundo do trabalho

Estou aposentada, quem acompanha estes escritos já sabe. Não vou destrinchar a minha jornada no trabalho agora porque não vem ao caso. Labutei bastante, embora muitos não achem isso realidade no serviço público, mas nunca deixei de reconhecer meu lugar extremamente privilegiado, inclusive a aposentadoria em si, nesse sistema de muita exploração.

Embora pareça esdrúxulo alguém fora do circuito ousar falar sobre, talvez exatamente pelo distanciamento e pelo meu radar continuar ligado, faço estas rasas observações, me permitindo usar livremente este espaço.

Sempre observei ao longo da vida a forma como lidamos com o trabalho.

Uma necessidade, é claro, (mesmo aquele doméstico não reconhecido nem remunerado), mas também uma forma de estar neste mundo que nos identifica pelo que fazemos e não pelo que somos.

Tenho ouvido especialistas sobre as novas habilidades do mundo do trabalho que já parecem óbvias: a familiaridade com tecnologia e a capacidade de se moldar às necessidades do mercado que não para de mudar. Ninguém vai terminar a vida profissional, se é que ela vai terminar, do jeito e no ambiente em que começou. Essa dança, como tudo, pode ser boa porque possibilita a experimentação de novas realidades, funções e de se jogar nos sonhos eventualmente.

Mas é fato que o trabalho nunca deixará de ser exploração de alguma forma. E sempre uns mais explorados do que outros. E entre nós, com um desemprego avassalador, a exploração tende a ser maior e a informalidade uma realidade da conjuntura e da mudança de paradigmas.

E a gente ainda segue com aquela mentalidade de “chegar lá”, seja na aquisição de bens, experiências, de status, de reconhecimento, ou com a boa e velha utopia de estar melhorando a realidade.

O mercado lança e cobra novidades o tempo todo, e o acompanhamento das demandas continuas exige criatividade, investimento de dinheiro e energia e qualquer coisa pode deixar de valer ou perder importância do dia para noite. Isso faz com que trabalhar signifique pura adrenalina. Tudo pode ser bom, o excesso é sempre demais.

Mas o que me chama atenção hoje, é que a tecnologia, quanto mais avança, mais parece escravizar do que libertar, contrariando aquela expectativa de que com ela teríamos mais tempo livre para o ócio… Tanto ricos, como remediados e pobres, com o advento dos smarts passaram a ficar “full time” à disposição do trabalho. O fato de se poder trabalhar de qualquer lugar, se facilita a vida por um lado, faz as pessoas trabalharem também o tempo todo, mesmo quando fazem o que gostam ou administram seus próprios negócios.

Os limites já foram impostos por leis lá trás, mas hoje, na escassez delas, os limites vão ser ditados pela necessidade, pela fila de espera, pelo esgotamento ou pela conquista de alguma sabedoria.

E a exploracão hoje às vezes acontece das pessoas com elas próprias. A identificação com o trabalho é tanta, o medo de perdê-lo, de serem esquecidas, a sensação de que a engrenagem vai parar se dormirem, desligarem o celular, não atenderem, descansarem, que já temos uma nova síndrome, o “burnout”, catalogada pela OMS, que é a pura exaustão, e já é muito diagnosticada em jovens.

Nem vou dizer aqui da nova cara da escravidão “institucionalizada”, uma triste realidade ainda nestes tempos ditos tão avançados.

“Sextar” nas redes sociais, virou quase um grito de guerra, soltar os grilhões, em pleno século XXI, mesmo que uma grande maioria siga trabalhando pelo fim de semana afora, achando bom por ter trabalho afinal. A configuração de “semana” ainda é um resquício da era analógica, porque já convivemos com o slogan da Globonews: “nunca desliga”.

Ronaldo Lemos, advogado especializado em tecnologia, citou em um de seus artigos, uma fala que ouviu em Davos: “Temos um cérebro forjado no Paleolítico, temos instituições forjadas na Idade Média e temos tecnologias futuristas”. O contraste entre esses três ainda vai gerar muitas questões de difícil solução”.

Que eu traduzo da seguinte forma: nosso desenvolvimento pessoal, a ética, e os valores humanitários, bem como a configuração das instituições não avançam nem de longe na proporção dos avanços tecnológicos.

E como o trabalho lida com tudo isso, temos diante de nós uma das questões mais complexas do nosso tempo.

(E assim, dedico este texto e passo a bola para meus filhos Vinícius e Gabriel, que estão agora no olho do furacão)

Um comentário em “O mundo do trabalho

Deixe um comentário