Não sou foliã. Quando estou na cidade, visito eventualmente algum bloco com minha cara lavada de sempre mesmo, sem brilhos e adereços. Mas o fenômeno do carnaval de rua que se firmou nos últimos anos não passa despecebido nem ao mais recluso cidadão.
Esse boom que aconteceu principalmente nas capitais, já que no interior ocorria mais como um batismo de adolescentes, me parece mostrar o quanto vivemos “embolhados”. Nos nossos condomínios, guetos, crenças, convicções, temores e agora nas bolhas digitais.
Durante uma semana no ano, furamos essas bolhas, saltamos nossos muros, liberamos recalques, pisamos as ruas, que no dia a dia são apenas passagem, pistas de carros e medo, fantasiamos o corpo e o imaginário, toleramos mais do que estamos acostumados, mesmo que à base de cervejas, gins e catuabas.
Sinto que esse desembolhar momentâneo e catártico é consentido, de certa forma controlado, e com gartantia de retorno ao status quo. É o que todos esperam afinal. Sentir saudades, e contar os dias para o próximo. Alegria com hora de começar e acabar. Voltemos depois cada qual para seu quadrado.
E ficamos felizes ainda com a possibilidade nesses dias, de propiciar um ganho extra para “empreendedores de eventos sazonais”, os nossos conhecidos ambulantes, camelôs, e os recicladores de latinhas e de resto toda a economia local.
Inegável que o carnaval de rua tem sido uma baita conquista principalmente pelo seu caráter espontâneo de surgimento e crescimento, sem a beligerância e o confronto a que estamos acostumados, até onde sei, e até agora pelo menos.
Um esforço de ocupação de espaços públicos, de arte, expressão cultural, de transgressão, de política, de catarse, de criatividade, de convivências improváveis, de estabelecimento de limites e respeito (não é não), que vai se aprimorando e que poderia, quem sabe, extrapolar a semana momesca.
Um evento em que o poder público está a serviço da vontade popular, não o contrário, como vemos habitualmente e que surgiu de baixo pra cima. O povo merece se divertir “de vez em quando”, dizem conformadas as autoridades, naquele tom paternalista de quem tolera a festança exatamente pelo seu caráter momentâneo e de hora marcada, além desse ser considerado um ajuntamento “do bem”. Outros, nem tanto…
Festa é festa, passou, acabou, mas nossas cidades caóticas, inundadas de água, lama, descasos, segregação, trânsito, poderiam se contaminar da alegria, do comprometimento, da espontaneidade e da inclusão que o Carnaval de rua proporciona na maioria das vezes. Que não existe para poucos VIPs, que não pretende delimitar espaços com cordas, que encara sol ou chuva e onde cabe todo mundo.
Vivemos tempos nada carnavalescos, de patrulhas, radicalizações, ansiedade, animosidades e incertezas. A única coisa certa é: ano que vem tem mais carnaval.