Acompanhando toda a polêmica sobre currículos de ministros, as mentiras que muitas vezes são contadas neles e quão risível é essa capa de títulos que nos colocamos, me lembrei do Seu Zé, antigo porteiro do prédio dos meus pais que, sabendo que eu era formada em direito, sempre me tratava por Dra. Não abria mão. Nunca advoguei, mas apenas sabendo do título, que entre nós é atribuído a médicos e advogados desde sempre, já considerava suficiente para o tratamento, que não era dispensado a outros formados em curso superior na minha família.
Este é o um recorte da nossa sociedade, que valoriza nossas embalagens e que muitas vezes abrem portas, mas também segregam e falseiam a realidade.
Está claro que precisamos de especialistas, cientistas, pessoas com formação “superior”, (o nome já discrimina) mas ninguém é o seu currículo e ele não é garantia de competência e lisura, estamos cansados de saber.
A cobrança por currículos robustos, coloca em xeque até a própria formação, já que muitas pessoas vivem fazendo cursos às vezes caça níqueis apenas para ter o certificado ou cursos bons mas mal feitos com o mesmo fim. Importa é constar e ter o passe valorizado.
O fato é que se de um lado temos os negacionistas, os que acham que Universidade é apenas pra fumar maconha e fazer sexo, que a Terra é plana etc, de outro temos os que supervalorizam os currículos e medem as pessoas pelo que elas produzem de conteúdo acadêmico e pelos cursos que fazem. Há exageros pra todos os lados, penso. Nem vou falar aqui da nossa eterna desiguldade no acesso ao ensino básico mesmo.
O episódio ocorrido esses dias de uma mulher dizendo que o marido não era cidadão, mas engenheiro civil, é um clássico. A gente questiona, mas quem entre nós que tem curso “superior”, (aspas de novo) no fundo não se acha mesmo superior e mais protegido socialmente?
Adoramos títulos: de doutor, de gerente, de CEO, de Chef, empresário, e frequentar listas e rankings, e vamos criando escalas de valores entre as diversas atividades profissionais e fingindo reconhecer a importância dos garis ou daqueles profissionais terceirizados que fazem nossa vida funcionar de verdade ou fazer mais sentido, como os artistas, por exemplo.
O saber científico precisa de todo um rigor e protocolos para ser válido e atingir seus objetivos, tenho aprendido isso com meus filhos; atuar em órgãos da gestão pública que impactam diretamente a vida das pessoas (e não simplesmente cidadãos, outro título), exige conhecimento, estudo, senão do titular maior, ao menos da equipe de suporte, para a boa destinação dos recursos e encaminhamento dos projetos. E óbvio, tudo isso vale também para várias atividades específicas, sejam técnicas ou nas áreas humanas e sociais.
Afora isso, carteiradas seguem por aí, a vaidade e a valorização profissional pela carcaça da titulação segue estimulada, uns pagam por outros, curriculos são devassados e reputações destruídas ou hiper valorizadas, e por outro lado muita gente boa segue estudando, compartilhando e colaborando sem enfileirar certificados nas paredes ou exigir tratamento diferenciado.
Saber e sabedoria nem sempre andam juntos e a humildade imposta a algumas pessoas por suas limitações de estudo, devia estar mais presente nos que acessam o conhecimento, seja pela responsabilidade, oportunidade ou pela constatação de que na verdade sabemos pouco ainda. Principalmente de nós mesmos. Isso escola nenhuma ensina.
Tem razão, Lena. Na minha profissão encontrei e encontro pessoas “humildes” (entre aspas) , sem nenhuma instrução, que são verdadeiros poços de sabedoria e saber e integridade.
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