E seguimos 2020 quarentenados, aguardando a vacina, o renascimento das cinzas da economia e o famigerado “novo normal”.
E na balbúrdia de lives desse isolamento, descobri o Papo das nove, do jornalista André Trigueiro. Nesse evento diário, ele, que é espírita, começa lendo uma mensagem de Pastorino, a partir da qual sua fala bem articulada se desenvolve.. Segue com indicação de livros, comentários sobre algum evento político, e respostas às perguntas da audiência.
Suas análises e respostas tem como parâmetro a doutrina espírita, não como pregação, mas indo de encontro com a origem da palavra religião, que é “religare”, unir, portanto. Não parece ser intenção dele converter ninguém, ele está apenas sendo ele.
Fosse eu religiosa ou ateia fervorosa, coisa que não sou, talvez eu não o acompanhasse simplesmente por ele professar alguma fé ou algo diferente do que acredito e por ele não se apresentar apenas como jornalista.
Mas tenho gostado bastante e aprendo muito. Digo isso porque atualmente, acho que estamos vivendo muito de exclusão, rótulos e bolhas. Euzinha mesma.
Acompanho também vez ou outra um podcast de jovens budistas.
Em algum momento lá trás alguém disse que religião é o ópio do povo, e pode ser realmente, da mesma forma que o dinheiro, o consumo e o poder também. Tudo na vida pode ser alienante afinal.
As religiões já fizeram e justificaram muitas atrocidades e hoje vivemos a temporada neo pentecostal de estelionatários da fé que se juntam ao poder constituido para manipular fieis e enriquecer. Estado e religião andando juntos é onde mora o maior perigo.
Mas as religiões e a espiritualidade sempre existiram, existem e acho que sempre existirão. Nossa busca por transcendência, o não conseguir explicar tudo, que nos acompanha desde sempre, o sofrimento, o medo da morte, a nossa necessidade de ritualização, a ancestralidade que carregamos, nos faz buscar alento, respiro ou algum tipo de conforto e comunhão, dentro ou fora de religiões. As vezes buscamos tudo isso numa pílula ou conseguimos chegar perto com uma música, no contato com a natureza, praticando o silêncio ou celebrando em rodas.
Nos textos e falas mais recentes do cientista Marcelo Gleiser, por exemplo, já há um certo reconhecimento de que , “No creo en brujas, pelo que las hay, las hay“, indicando que fé e ciência podem não ser tão excludentes assim.
Há alguns anos atrás, li o livro, Deus, um delírio, e lembro que na época achei o autor um ateu tão fervoroso quanto qualquer fiel religioso, o que mostra que há fanatismo em todas as vertentes da condição humana. Fernanda Torres disse outro dia com seu jeito debochado, que é “ateia não praticante”. Tem de tudo.
Vivemos tempos de “caça às bruxas” em mão dupla e em todos os segmentos sociais.
Não acabaremos com a política como querem alguns porque há maus políticos, não acabaremos com religiões ou religiosidades, como querem outros porque há maus religiosos, não acabaremos com relações porque há relacionamentos tóxicos ou ruins.
Haveremos de amadurecer para lidar com todos os aspectos da nossa humanidade com autorresponsabilidade, inteireza, respeitando também as escolhas alheias, convivendo com a diversidade, sem imposições, lavagens cerebrais ou exclusões.
Ponho fé nessa utopia, enquanto sigo na busca da minha própria fé.