Como dizem influenciadoras nas redes sociais – “estou sumida daqui” , quando ficam algumas horas sem postar.
Diante dessa loucura em que estamos metidos, é difícil concatenar algo que seja relevante. Mas às vezes a escrita é justamente pra tratar de irrelevâncias.
Seja como for, o que me traz hoje aqui é a frase que passou pela minha timeline, atribuída ao sociólogo Milton Santos:
“A força da alienação vem dessa fragilidade dos indivíduos, quando apenas conseguem identificar o que os separa e não o que os une.
Ela bateu forte com o que tenho sentido nos últimos tempos. Nossa separação.
As ideologias, pautas identitárias, política, relações sociais, produtivas, culturais, religiosas, tudo está atravessado pela fragmentação e pela separação.
Exemplos? Temos muitos.
Há os de esquerda anos 60, os esquerda modinha, os esquerda paternalistas, os intelectuais, há os de direita extremistas, moralistas, há os de direita moderados, há os genocidas, há os de centro “come quietos”, os de centro idealistas, há os que não acreditam em política ( é tudo igual) e os que acreditam que ideologia não existe. Há conservadores e reacionários. Há os cientistas, os anti ciência, os espiritualistas, os fundamentalistas, os novaeristas, os religiosos. Há os liberais, neoliberais, há os Faria limers, os comunistas Há os sobreviventes.
Nos grupos identitários há várias vertentes. Dentro do feminismo há várias demandas. A maternidade virou uma pauta cheia de fissuras. Há homens tóxicos e o patriarcado a ser combatido, há machistas em desconstrução, racistas em desconstrução, há racistas e machistas convictos. Há o LGBTQI+, há os povos originários, a população negra, a branquitude. Há o conflito de gerações, há os ecologistas e os veganos que já se dividiram também. Há pessoas portadoras de necessidades especiais. E por aí vai.
A diversidade é a nossa marca e a liberdade de pensamento uma conquista .A busca por reparações, resgates, mudanças e inclusão, uma necessidade constante. A parte boa é que a internet abriu espaço para grupos invisibilizados e criou oportunidade para formação de redes de colaboração.
A meu ver a questão surge quando todo esse quebra cabeça não encontra nenhuma intercessão. Quando tudo vira patrulha, uma vez num grupo não pode transitar em outro, uma vez rezando uma cartilha não pode sair dela, só o meu grupo é o certo, o bom e o correto. Há uma depreciação a tudo o que o outro faz se não for absolutamente coerente. Ou a depreciação acontece apenas porque o outro fez ou por sua simples existência.. Há a obrigação de fazer algo o tempo todo também, se posicionar, tomar partido, bater de frente e ter um diagnóstico e um plano perfeito, que sempre pressupõe a exclusão de algum grupo, que deve ser exterminado. Pessoas usando das mesmas armas de seus oponentes ou opressores.
O que me impressiona é que isso acontece num momento em que a humanidade e sua permanência nesse planeta está em xeque. Estamos à beira do abismo da extinção discutindo irrelevâncias como a que vi esses dias sobre se leite vegetal pode ser chamado de leite.
Mas, paradoxalmente, somos mesmo seres das irrelevâncias. Outras irrrelevâncias. Da poesia, da dança, da transcendência, das fantasias, sonhos, do encontro, do riso, do choro, do grito, do abraço que tanto nos faz falta atualmente. Essa é a nossa graça e é o que estamos perdendo.
Talvez estejamos nos levando a sério demais. Talvez estejamos com muito medo. E com medo tudo vira ameaça.
Rubem Alves foi um dos autores que me mostrou a importância das irrelevâncias, que tão bem nos mostram as crianças e que abandonei, confesso, me agarrando à gravidade do momento e da minha fase da vida.
Reproduzo e compartilho aqui trechos de um texto seu, chamado Deus menino
“Andar para frente pode ser um equívoco. Aforismo de Eliot: “Numa terra de fugitivos aquele
que anda na direção contrária parece estar fugindo”. Por vezes andar para frente é ficar cada
vez mais longe. Os adultos andam para frente. Os poetas parecem andar para trás. Os adultos
dizem que eles estão fugindo. Mas não. Como os salmões, que deixam o mar e voltam às
nascentes de águas cristalinas onde nasceram, os poetas desejam voltar às suas origens. É lá
que mora a verdade que os adultos esqueceram. Fogem da loucura da vida adulta. Buscam
reencontrar a simplicidade da infância. Acho que é isso que Eliot queria dizer quando ele
escreveu: “E, ao final de nossa longa exploração, chegaremos finalmente ao lugar de onde
partimos e o conheceremos então pela primeira vez
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Bernardo Soares, uma das entidades-Fernando Pessoa, é explícito: os adultos são burros, as
crianças são inteligentes. “Sim, julgo às vezes, considerando a diferença hedionda entre a
inteligência das crianças e a estupidez dos adultos, que somos acompanhados na infância por
um espírito da guarda, que nos empresta a própria inteligência astral, e que depois, talvez com
pena, mas por uma lei alta, nos abandona, como as mães animais às crias crescidas, ao cevado
que o nosso destino”. Discordo só num ponto: a inteligência astral não nos abandona em
decorrência de uma lei mais alta. Ela nos abandona por ser incompatível com a adultice. A
inteligência adulta é grave. Faz afundar. A inteligência infantil é leve. Faz levitar.”
A nossa inteligência está nos afundando? O que será capaz de nos unir?
As irrelevâncias, talvez?