“Elba Ramalho diz ser alérgica à política: ‘Rasguei meu título há anos’.”
Li hoje no jornal essa declaração, e, apesar de super entender, não acho que faça sentido no momento em que vivemos.
Primeiro porque já faz tempo que política extrapolou as questões partidárias, de governos, de projetos econômicos, e de luta de capital/trabalho.
Agora, a vida é tomada pela política. O que se come, se veste, o que se compra, como se locomove, o que se diz, a educação dos filhos, as artes, o trabalho, tudo está atravessado pela política.
Se estamos vivos, estamos fazendo política.
Segundo, rasgar o título é um ato político. Significa dizer que tanto faz, é tudo igual, como andam dizendo por aí. Um democrata ou um genocida, a democracia ou a ditadura.
Quem está nas redes acompanhou o embate da classe artística sobre a atuação política. Uns questionando a obrigatoriedade dos posicionamentos, outros cobrando posicionamento daqueles que carregam milhões de seguidores.
Aí uns dizem. Está tudo muito chato! Esse politicamente correto é terrível. Cadê a minha “liberdade” de expressão?
Não está mesmo fácil pra ninguém.
Realmente as pautas se multiplicaram, não sem razão. Os números do feminicídio, do genocídio da população negra e dos povos originários, da devastação ambiental, da desigualdade e da fome, impõe esse estado de alerta e embates constantes.
De novo, as redes sociais viraram um ringue, para o bem e para o mal, tanto como instrumento de mobilização como de disseminação de ódio e de fake news. É difícil atualmente saber como atuar, me sinto assim. Bater boca on line e em grupos de zap e Twitter , cancelar, compartilhar memes, bater panelas, ir para as ruas, tenho a sensação de que não sabemos que rumo tomar.
Tem uma turma inaugurando um jeito mais civilizado de fazer política e não raro é alvo de ataques de grupos de todas as tendências, que querem mesmo é ver o circo pegar “mais” fogo.
No mundo real as instituições tradicionais não conseguem acompanhar a velocidade das demandas sociais, seguem se protegendo e resguardando privilégios próprios e dos seus financiadores. Avançam e retrocedem, mordem e assopram. No entanto ,ruim com elas, pior sem elas.
Além de tudo, uma polarização que muitas vezes aproxima as pontas, quando, por exemplo, adulam, ou copiam nossa vizinha Venezuela ou estimulam o populismo. E no meio, não o centro, mas o nefasto Centrão.
O atual governo entrou com o discurso de uma “nova política” e o que vemos, no auge de uma devastadora pandemia é um terrível discurso negacionista que está provocando milhares de mortes, uma ameaça constante de ruptura, um desrespeito aos mais básicos princípios democráticos, e uma aliança perigosa com grupos milicianos.
Talvez, não entrar em embates virtuais corresponda ao rasgar o título de outrora. Deixa o “pau quebrar, tô nem aí”. Realmente, há que se proteger de um burnout de política.
De qualquer forma, meu título segue inteiro e torço pra que ele também siga valendo.