Adeus anos velhos

Princípio de 2020. Notícias de um novo vírus circulando na China. Está longe, ainda bem. O vírus começa a se espalhar, mundo em alerta. Em meados de março a OMS decreta: estamos numa pandemia. O novo coronavírus. A Covid. Histeria, lockdown. Aqui é quente, ele não sobrevive. Mas veio com tudo. Corrida por álcool gel, papel higiênico, alimentos. Lava tudo, esteriliza tudo, tira o sapato, home office, home scholling, só serviços essenciais, dispense a diarista. (por algumas semanas a família brasileira lavou sua própria privada.). Use  máscaras. Tutoriais, faça você mesmo. Use a de tecido. Não, só serve a Pff5. Ministro cai, ministro entra, e sai em seguida. Mortes aos milhares, profissionais da saúde exaustos, escolas e comércio fechados. Olimpíadas no meio do caminho pra dar um refresco. Negacionismo, vírus criado em laboratório pela China, presidente mandando sair e sem máscara, governadores mandando ficar em casa. Isolamento. Medo . General especialista em logística assume Ministério da Saúde. Agora vai. Morro abaixo. Sem viagens, sem encontros, sem abraços e celebrações adiadas. Deliverys aos montes, lives, Zoom, reuniões infinitas, ansiedade, depressão, auxilio emergencial a fórceps. Economia naufragando em meio a muitas fake news. Corrida pela descoberta de vacinas. Mortes escalando, sem despedidas e abraços de consolo. Vacinas aparecendo, esperança. Vai virar jacaré, vão implantar um chip na gente, melhor não. A liberdade individual é sagrada. Vacinas chegando, governo negando a nossa própria e qualquer outra. Mas chegou. Pessoas escolhendo vacinas. A vacinação avança. Temos histórico como vacinantes. CPI da Covid virou série. Escândalos, corrupção, desvios. A série acabou em pizza. Vacinados, começamos a sair. Patrulhas, denúncias de aglomeração, insegurança, qual o limite, como voltar a conviver. Vamos sair melhores dessa (?). Sofremos, brigamos e o novo normal não veio. Seguimos depredando, intolerantes, ambiciosos e preconceituosos. Mas a civilização parece ter vencido a barbárie em algum grau. Nova cepa nos assombrando. Não dá pra baixar a guarda. Todo mundo ainda meio perdido.

Mas, por tudo o que houve, principalmente em terras medievais brasileiras, é preciso agradecer principalmente:

Aos cientistas, que usaram todo conhecimento acumulado pra nos fornecerem as vacinas em tempo recorde e outros que se expuseram nas mídias para tentar dar orientações técnicas e balizadas diante de um mar de (des)informação. 

Aos profissionais da saúde que foram incansáveis e tão sacrificados.

Aos artistas, tão execrados nos últmos tempos, por nos salvarem da loucura.

A quem cuidou, acolheu, ajudou e amansou esse drama de alguma forma com muita empatia, afinal também somos e sabemos ser bons e solidários.

A todos que respeitaram as regras, a realidade, pensando não só em si mas em todo mundo em volta.

Aos governantes que não negaram a magnitude do problema, que respeitaram a ciéncia e bateram de frente com o negacionismo.

Particularmente, agradeço por ter estado em segurança, com saúde, apoiada na família e nos amigos e ainda ter conseguido nesse ano de 2021, depois de vacinada, fazer alguns passeios que me recarregaram e aliviaram um pouco do stress.

Há que se reconhecer também, que aqueles milhões que formam a base da nossa pirâmide e não puderam, por questão de sobrevivência se isolar em casa, foram responsáveis até pela nossa sobrevivência, nos atendendo nas nossas demandas in door. E como prêmio, milhões também foram rebaixados para a linha abaixo da pobreza, com o país retornando ao mapa da fome.

Todo mundo falhou, a experiência foi única para toda uma geração, mas houve muitos de má fé que são responsáveis por milhares de mortes e nem se importam, afinal vamos todos morrer um dia. Mas até pra morrer precisamos de um mínimo de dignidade.

Alguns poucos, os de sempre, enriqueceram ainda mais na pandemia. Uma lupa na nossa realidade cotidiana e desigual desde sempre. Ricos mais ricos, pobres mais pobres. Vacinas aos montes pra uns, quase nada pra outros.

E o final desses anos ano chegou.

De alguma forma celebraremos. A vida, a sobrevida, a sobrevivência, a esperança, os reencontros. Não é pouca coisa.

Mas ainda carregaremos a dor, as saudades, os lutos mal vividos e a traumática época de tantas separações e experiências doloridas ou não vividas. O sofrimento, principalmente das famílias, com as dificuldades que o confinamento trouxe, dos professores, dos pequenos empresários e das crianças, que tiveram  momentos importantes e marcantes das suas vidas ceifados  e que farão falta mais adiante.

Portanto, desejo aqui que cuidemo-nos, cuidemos uns dos outros e do planeta, somos uma teia interdependente, ninguém se salvará sozinho. Já pode ser tarde mas não impossível. Me esforço para crer nisso.

Adeus anos velhos. Deixarão marcas mas não saudades. O que faremos com elas saberemos mais adiante. Mas é urgente que façamos algo.

Partiu 2022. Com cautela porque estamos escaldados, cansados, ainda vulneráveis e teremos que encarar mais um ano desse desgoverno e eleições a brasileira, com suas características próprias de lealdade, honestidade, transparência e civilidade” (ironia)

2022, seu nome já é (mais) paciência.

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