Ancestralidade

O movimento indenitário vem forte há um bom tempo e tem nos tirado dos nossos confortáveis lugares comuns e de privilégios nos quais nos apoiávamos há séculos.

E o movimento negro tem me interessado bastante. E dentro dele, algo mais específico tem me chamado atenção. É sobre a “ancestralidade”.

É sabido que os negros foram arrancados de suas terras de origem, deixando pra trás todos os seus vínculos afetivos, sua forma de viver, sua história, religião, costumes, de forma absurdamente violenta.

Além do corte abrupto e da violência, não saberem de suas histórias e de onde vieram, gera um trauma pessoal e histórico. Atualmente existe um movimento de busca de seus lastros familiares através da investigação de DNA, tentando mitigar danos.

Parece algo banal ou irrelevante mas não é.

Entre nós, brancos e bem escolarizados, é comum lá no início da jornada escolar fazermos a árvore genealógica para sabermos quem veio antes de nós. Fazemos colagem, indicamos nomes, quem casou com quem e quantos filhos tiveram, mas pouco sabemos das pessoas anotadas ali.

Outro dia, num programa de TV, o Papo de Segunda, ouvi o testemunho emocionante do convidado, o jornalista e co-fundador da Central ùnica das Favelas, Manoel Soares, falando da falta que sente de registros fotográficos de seus pais e da sua infância, já que ele e a maioria do povo negro vive em lugares sujeitos a enchentes e constantes e alagamentos e perdem, quando não as vidas, seus objetos particulares. e afetivos.

Ali ele se reporta ao histórico episódio protagonizado por Ruy Barbosa, quando, enquanto ministro à época da abolição, determinou que se queimasse todos os registros sobre os escravizados, alegando a intenção de apagar essa mancha da nossa história e, segundo dizem, evitar eventuais reparações de danos.

Quando apagamos os registros, fingimos que apagamos nossas mazelas e queremos avançar em solo enlameado.

Em todas as Casas grandes de antigamente até nossos dias, sempre existiram álbuns físicos e agora os virtuais também, que expõe toda a rotina familiar e o desenvolvimentos dos filhos, com imagens e legendas fofas.

E sobre as histórias, o que as fotos contam ou contarão? Quem será o narrador?

Quem de nós se aprofunda nas suas origens? É necessário?

Minha mãe sempre foi contadora de histórias e o que sei sobre nossa família aprendi com ela, inclusive sobre a família do meu pai.

Imagino ancestralidade como o dueto pessoas e lugares de origem, não como forma de nos enrijecer em padrões familiares e das regiões, mas a partir deles podermos nos conectar respeitosamente com outras realidades da mesma forma como gostaríamos que fôssemos abordados, sem as caricaturas e as ideias preconcebidas. Para agregar e não separar.

Talvez a gente veja hoje os lugares de forma utilitária, como todo o resto. O que esse lugar pode me oferecer? O que posso trazer pra cá? Tudo pode ser ou não bom, depende da abordagem, se ela é integrativa ou impositiva.

Fato é que conhecermos nossas histórias familiares e do nosso entorno e dos lugares de onde viemos, cria uma corrente de respeito com quem abriu caminhos, com quem pode ainda nos servir de referência, com lembranças e memórias que podem nos acalentar ou nos mover para mudanças, onde quer que estejamos.

Negar isso não raro nos leva aos preconceitos de costumes, de religiões, alimenta a misoginia, o etarismo e apesar de sermos hoje mais livres pra fazermos qualquer coisa e estarmos em qualquer lugar, é bom ter para onde voltar, metaforicamente que seja.

Acho isso lindo.

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