Um novo iluminismo

Só há quase quatro anos atrás quando nossa família foi lidar com o acervo de mais de 4000 livros deixado pelo meu pai, é que me dei conta de uma realidade que não considerava.

Percebi que quase a totalidade de seus livros foram escritos por homens. Não vou arriscar estatística, mas nem precisa. Sabemos disso e esse é o recorte que vivi.

Até aqui, praticamente toda nossa vida, história, mitologias, ciência, filosofia, elaborações científicas, cartilhas morais, manuais de ética, dogmas religiosos, romances, artes, enciclopédias foram escritos e registrados por homens. Brancos.

Sim, generalizo. Por homens. É muito pouca e recente a participação das mulheres.

E por onde andavam todas elas? Parindo, cuidando de filhos, maridos, casa, cozinhando, rezando, costurando, chorando, sonhando, cantando, contando estórias e fazendo história e cultura também. De outro jeito.

E replicando os ensinamentos masculinos. Está quase no nosso DNA. Somos questionadas por repetirmos comportamentos e atitudes típicas dos homens quando em posições de poder ou na esfera pública. Dá pra saber porquê, não?

Atualmente as mulheres buscam sua identidade, seu espaço próprio e particular, suas próprias leituras da vida, suas vozes. Não se trata de certo ou errado ou de oposição, mas de diferente.

No entanto, se criamos outra forma de atuar na realidade somos desacreditadas e nem mesmo nós às vezes nos validamos. Já nos cobramos muito também uma postura masculina pra sermos aceitas nos ambientes antes exclusivos deles. Mas isso está mudando.

A gente se vangloria da humanidade ter “chegado até aqui” seja lá o que isso signifique.

O que povoa meu imaginário e queria registrar é:

Até onde “teríamos chegado” se as mulheres tivessem participado ativamente do processo de construção da nossa cultura?

O que constaria nos manuais, nos livros de história, nas academias…. que escolhas científicas ou filosóficas faríamos?

A gente teve mulheres incríveis que deixaram grandes legados e temos hoje também grandes intelectuais, artistas, ativistas, cientistas, e outras medíocres também, da mesma forma que temos grandes homens e os medíocres também. E tudo bem. E não se trata de ter “grandes”, e sim de ser normal e termos muitas.

Sempre que entramos no páreo achamos que temos que ser as melhores. E não podemos errar. Vivemos ainda uma realidade de concessões e de chutes nas portas, e não de pluralidade.

Não significa que as mulheres que vivem ou viveram todo esse tempo no ambiente doméstico ou no espaço do “cuidar” em somos colocadas desde sempre não tenham valor. Ao contrário, embora invisibilizadas e desvalorizadas, carregaram e carregam a base da nossa sociedade, mas não por escolha na maioria das vezes.

Quantas artistas, escritoras, cientistas, filósofas, médicas etc ficaram pelo caminho? Quantas “bruxas” foram queimadas? Quantas ainda são?

Quando vejo nos noticiários o momento brasileiro, e do mundo também, dá pra sentir como os homens se sentem ameaçados, reativos e violentos diante da caminhada irreversível das mulheres para a inserção em todos os ambientes, o controle do próprio corpo, a busca (ainda) por emancipação sexual , e, mais importante de tudo, a busca por nos conhecermos pra dizermos e apontarmos que sociedade queremos construir daqui pra frente.

Patriarcado virou uma palavra batida, mas não tem como fugir dela. É no patriarcado que vivemos. Ainda.

Agora o mundo está globalizado, gostemos ou não. E não se trata apenas de um globalismo econômico. Nesse contexto, “um iluminismo” só talvez não dê conta mais, mas vários. Somos complexos, a vida é complexa, são muitas vozes, muitos olhares, muitas origens, muitos “habitats”. Não dá mais pra colocar todo mundo na caixa eurocêntrica ou no American way of life.

Seja em que formato ou avatar tecnológico estivermos, que as bibliotecas se diversifiquem, a oralidade seja acolhida, a diversidade deixe de ser uma ameaça, a arte seja cada vez mais plural, o cuidado seja responsabilidade de todas a pessoas, e a possibilidade de escolher também.

Utopia que chama?

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