Vivendo de escolher

Já dizia Cecília Meireles, num verso muito citado por minha mãe: “ou se calça a luva e não se põe o anel ou se põe o anel e não se calça a luva”

Sim, vivemos de escolher. Cada vez mais e a todo momento.

O que comer, o que vestir, como ir, o que dizer, o que postar, o que curtir, o que compartilhar, aonde ir, com quem ficar, aderir ou não, aceitar ou não, o que assistir, ler, ouvir. Com o que se importar, o que deixar pra lá, que brigas comprar.

Escolher até um simples shampoo virou algo complexo e angustiante.

Não à toa nos transformamos em seres ansiosos.

Escolher significa deixar a outra opção e pagar o preço da escolha feita. Os bônus e os ônus.

Sempre foi assim, mas a demanda por escolhas só faz aumentar. Isso às vezes paralisa. Diante do catálogo da Netflix passando na tv, quantas vezes desistimos ou acessamos qualquer coisa pra passar o tempo? Nada demais, normal.

Quantas vezes acabamos abdicando de escolher o que realmente queremos pra seguir o que está bombando nas redes, né? Afinal não podemos ficar de fora dos “trending topics” e das tretas.

Quantas vezes ouço: você tem que assistir isso, tem que ouvir aquilo, tem que ir aqui ou acolá, tem que conhecer tal restaurante, tal lugar. Vai perder?

Não escolher está fora de cogitação, mas como escolher melhor, como estar mais afinado com nossas preferências, as “configurações” do nosso perfil real, e não ser levado como manada, achar que não podemos perder nada e no dia seguinte nem lembrar mais do filme que assistiu, do livro que leu, acordar com um pet em casa sem ter a mínima condição de cuidar, e não ser impactado por mais nada?

Não sei, ando investigando, mas novamente busco socorro em outra máxima popular que também aprendi com minha mãe: devagar com o andor que o santo é de barro.

Sim, sem uma desaceleração, uma parada, uma respirada e sem o tal do autoconhecimento, embora tudo isso pareça a esta altura papo de coach ou clichê, não dá.

Sim, somos seres sensíveis, não de barro, mas frágeis, embora posemos de fortes e poderosos. A gente se autoflagela pra cumprir agendas que não são nossas, adotar projetos que não nos tocam, que não fazem parte do nosso momento ou só pra agradar os outros.

Cansados, todos? Até as crianças? Sim.

Uma das qualidades de envelhecer, que não é fácil nem tranquilo, é ficar mais seletivo e tento acolher isso sem culpa. Fácil, não. Consegui, pelejando ainda, mas atenta pelo menos e evitando a paralisia.

Aqui vai o poema completo, provando que a dúvida é questão antiga e é o que nos move ou nos paralisa, depende. Vai escolher o quê?

Ou isto ou aquilo

( Cecília Meireles)

Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão ,
Quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo em dois lugares!

Ou guardo dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e não guardo o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo…
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.

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