Quem já não disse ou ouviu essa frase do título?
Quem quer mato, né?
Como vamos construir moradias, empresas, gerar empregos, produzir energia, alimentos, etc, com tanto mato?
Estou lendo, devagarzinho, o livro Arrabalde, de João Moreira Salles, que faz uma pesquisa bem bacana sobre a Amazônia ou uma parte dela, e esse olhar sobre todo aquele “mato” como um empecilho, sempre foi recorrente por lá. E ainda é.
Confesso que estou bem impactada, com tudo o que a floresta nos oferece, com tudo o que fizemos, e com tudo o que deixamos de fazer e aprender com ela.
De grifo em grifo, a cabeça vai dando nó.
Mesmo precisando de terra e recursos naturais para nos instalar e desenvolver, será que precisava ser do jeito que foi?
Será que precisávamos criar essa dicotomia, natureza X nós?
Será que não investimos pouco em pesquisa e não demos valor a toda a tecnologia da floresta e de seus moradores que agora vem à tona?
Essa nossa abundância de resursos naturais nos fez perdulários, gerou descaso e criou em nós a sensação de que nunca ia acabar.
Neste momento em que estamos literalmente reféns da tecnologia digital, ainda não nos demos conta de que sem ar respirável, sem chuva a tempo e a hora, sem a tal biodiversidade, sem rios limpos, não chegaremos a lugar nenhum, nem deixaremos nada além de doenças, guerras e lixo.
Falo, claro, e ninguém precisa me lembrar, daquele lugar privilegiado, morando em cidade, com todo conforto à minha volta, os streamings, os eletros, o avião…
Alguém sempre vai dizer. “Então abandona seu micro-ondas, seu carro, e vive de brisa”.
Esse é o jeito que encontramos para dar as costas a um tema tão importante, complexo e incômodo.
Será que a conversa tem de ser sempre no tudo ou nada?
Será que adianta? Será que uma atitude desta vai reverter em mais redes de esgoto?
A despeito disso tudo, algum lugar de fala me reservo o direito de ter. É neste mundo imperfeito e injusto que vivo.
Esse tipo de provocacão embota, limita e interrompe qualquer debate a respeito.
Na pior das hipóteses, estou conhecendo um pouco mais de uma parte do país que desde criança ouço dizer que vai acabar e nunca vi ninguém fazer nada a respeito.
Afinal, fizemos o que demos conta, o que nosso sistema e nossa cultura nos impelia a fazer. O “progresso”.
Mas ninguém àquela altura sabia (ou sabia?) que acabando lá, acabamos nós também. Acabamos?
Não estou nem na metade do livro e só tenho perguntas, dúvidas e angústias.
E pena. De nós mesmos, que não soubemos aproveitar, dividir, aprender, e conviver com toda essa riqueza que ainda não é considerada riqueza e virou palco de faroeste.
Como disse Simon Levin, ecólogo citado no livro: “a complexidade da floresta é infinita”. “ir à Lua é uma brincadeira”, diz, sorrindo.
Como se vê, fizemos escolhas e toda escolha tem seu preço.
Ganhamos muito com a tecnologia, resta entender que a floresta tem uma dinâmica própria e bela que pode nos ajudar muito ainda. Quem sabe até nos salvar .
Se eu acredito nisso? Sinceramente? Não, mas quero e espero muito estar errada.