Há um tempo atrás, entrei num ônibus, e minutos depois, comecei a sentir um cheiro muito ruim.
Ruim de verdade. Fiquei tentando identificar e não demorou pra eu ver que o jovem sentando ao meu lado tinha aberto um saco de qualquer coisa amarela e começou a comer distraidamente.
Até hoje penso. A que ponto chegamos? Nem percebemos mais o que estamos comendo…Um isopor amarelo malcheiroso que nem gostoso é. Mas vicia, distrai, é barato.
Corta.
Ando chafurdando em receitas alternativas para carne, leite, etc. Ai me deparo com empresas e pessoas melindradas. Se não é de vaca ou de mamífero, não é leite. Se não é de carne, não é hamburguer, se não é de trigo, não é pão. Ai, ai.
O que a gente não quer enxergar é: tudo é fake hoje, sinto lhe dizer.
O leite que compramos no supermercado já não é leite, o pão não é mais “aquele” pão, o produto fatiado na bandeja de isopor coberto por plástico não é queijo. É produto lácteo que derrete.
A maioria dos produtos que chamamos de iogurte não é iogurte.
Os hambúrgueres prontos tem muitas coisas além de carne. Entre eles a soja, já que produzimos muito e temos que incorporá-la em tudo, além de aditivos, aroma de carne, etc.
Não vou entrar aqui na questão animal.
Esquecemos que na base de muitos desses produtos, originalmente, tem um processo muito antigo chamado fermentação.
É um processo bem comum e conhecido na Europa e na Ásia, como o Kimchi, o chucrute, o Kefir, missô, dentre outros.
O próprio queijo, o de verdade, coalha ou fermenta e/ou matura.
Até o cacau passa por fermentação para virar chocolate.
Nesse processo se desenvolvem boas bactérias, que estimulam nossa flora intestinal, enzimas, e pré digerem os alimentos, nos livrando de desconfortos.
Já fiz “queijo” de castanha e semente fermentado, que considero mais queijo do que a muçarela vendida no supermercado.
Mas nos perdemos nos industrializados e ficamos cheios de mimimi, querendo tudo embalado, colorido, macio e com o cheiro que a indústria nos impõe.
Decidimos que criança come diferente, leia-se, batata frita e nada verde.
E está todo mundo intolerante a alguma ou várias coisas. Mas talvez nossas intolerâncias tem mais a ver com os processos, os aditivos, agrotóxicos, do que com a matéria prima em si. Não sou especialista, mas já percebi em mim isso.
Até nosso paladar mudou. Açucarou
Agora, esses produtos quando feitos com a fermentação ou sem muitos outros elementos que não a matéria prima original e de origem mais limpa, ficaram “gourmet” e para poucos.
Para os mais pobres, restam as salsichas, biscoitos açucarados, e tudo o mais com o que sobra da indústria,
E dá-lhe propaganda.
É assim que toca a banda desse sistema em que vivemos, que já nem sei mais o que é também.
Vamos ter que amadurecer.
Pensar que o que comemos consome o que a terra não tem mais pra oferecer, pode matar as pessoas que produzem, produz lixo, problemas de saúde física e mental, gastos com tratamentos, desigualdade.
E a gente fica de mimimi com nomes, reclamando que não se pode comer mais nada, tudo é proibido ou faz mal, mas não queremos mudar. diminuir, procurar saber. “Me deixa com meu refrigerante. É diet!” Não importa a quantidade de água e plástico que se gasta para fazê-lo, e o tanto que adoece as pessoas.
Fato é que muito bicho não comeria metade das coisas que nos são oferecidas hoje e comem quando tem fome. Sábios eles.
A gente come também para confraternizar, se deleitar, eu sei, mas podemos rever nossos conceitos até aí.
Criamos esse imbróglio, vamos ter resolver. Ou pagar todos os preços e consequências, que são sempre maiores para uns do que para outros.