A tal zona de conforto

Na minha sala de TV tinha um sofá que meus filhos odiavam. Ele era mais estruturado e eles diziam que não servia pra pra assistir TV, apenas pra receber visitas.

Na pandemia, confinados em casa, resolvemos investir em um sofá “confortável” pra esta sala, Retrátil, com encosto que regula alturas. E é óbvio que caiu no gosto geral.

Depois de uns três anos de uso, noto que ficar nele tem me causado problemas de postura, dores e incômodos lombares. Claro que a culpa não é apenas do sofá né?

Mas a gente fica refestelado de uma forma inadequada e pouco anatômica, sabemos todos.

Comecei a me sentar no chão de vez em quando, usando uma almofada tipo futon.

Tenho que alternar todo aquele conforto com o chão duro.

Expulsa do conforto que busquei.

Dei um depoimento bem trivial e doméstico pra cutucar o tema da tal zona de conforto, que rende debates e memes nas redes, como tudo hoje. Pessoas convocando pra sair da zona de conforto e uma galera querendo ao menos chegar nela.

Já nascemos saindo de uma zona de conforto que é o útero e daí por diante é uma sucessão delas que somos obrigados a abandonar. E abandonamos por moto próprio ou por contingências da vida. O colo, a casa, a escola, as escolhas e as possibilidades profissionais e afetivas, caminhando para a velhice, lidando com perdas, doenças nossas e alheias, gerenciando o stress e a complexidade do mundo.

Claro que há um contingente de pessoas que necessita de uma dose extra de adrenalina, e que busca mais desafios, através de esportes, aventuras, mudanças bruscas de rota, e todos nós em algum momento precisamos de uma chacoalhada pra nos colocar à prova ou testar limites.

Mas é sempre um esforço porque, dizem os estudiosos, tendemos a economizar energia para tempos de escassez. Talvez por isso, a briga de muitos pra ir à academia.

Já o poeta diz: “A preguiça é a mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda.” (Mário Quintana)

Mas é fato que, agora recorrendo à literatura bíblica, já fomos a tempos expulsos do Paraíso e de lá pra cá não tivemos nenhuma época de sossego.

Daí que, vivemos essa queda de braço entre a lei do menor esforço, lidar com as encrencas que nós mesmos criamos e que o próprio viver nos impõe e a busca por desafios.

Se está confortável demais vamos sentir dor e sair da zona de conforto também dói.

Portanto, tá me parecendo que zona de conforto afinal não existe.

Nem no sofá.

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