Eu tenho um sonho

Sou nascida e criada na cidade, numa típica família burguesa de muitos filhos, com as oportunidades possíveis na época.

Como típica burguesa mineira, também tenho uma casa de campo pra arejar da cidade, respirar e andar na natureza.

Hoje, com a casa alugada por decisão que levou em conta muitas coisas, tenho um distanciamento pra elaborar questões que na realidade sempre me incomodaram.

A gente quer os confortos da cidade e o “sossego” e a segurança” do mato, dos condomínios fechados horizontais. Estamos sempre pagando para ter, o que deveria ser direito universal.

Um ar respirável, uma cidade amigável, convivência, boa circulação, verde, bons serviços.

Mas a gente quer ser diferenciado, quer todas as novidades, exclusividades, impor nossos valores nas comunidades onde instalamos nossos condomínios. Humildade zero.

Sabemos o que é melhor para todos, racionalizamos nossos desejos para impor modelos, e o mantra dos 30+ é: adensar e privatizar, adensar e privatizar, adensar e privatizar. Este combo resolve.

Como burgueses, adoramos visitar relíquias do velho mundo, catedrais, pubs, cafés franceses, ruínas de outras civilizações, enaltecemos os serviços públicos em pleno funcionamento, mas entre nós a filosofia é a de “terra arrasada”, como dizia minha mãe, como sempre, sábia.

Para ter o chamado adensamento estamos arrasando tudo, sem melhoria das estruturas viárias, sem criar espaços de convivência públicos, sem preservar história, e criando mega estruturas autossuficientes, assépticas, envidraçadas, com porteiros à disposição para receber nossas encomendas, apenas colocando o “lixo” na porta para alguém buscar, todos os serviços internos e clientes (nós), exigentes, que descem, muitos contrariados, apenas para receber comida, e entrar num carro de aplicativo.

Uma moradora do Sion, bairro próximo ao meu, questionou a Prefeitura sobre o tamanho do edifício que está sendo construído no bairro e ela, Prefeitura, respondeu que a obra não vai interferir no tráfego aéreo.🤦‍♀️.

Está na moda também entre nós, defender o fim do racismo, do etarismo, discursar sobre ecologia. Alguns de nós lê Djamila e seus manuais, Krenak etc, mas tudo lá e a gente aqui.

Somos a classe da caridade. Somos muito caridosos, mas não queremos mudar as estruturas, por mais que o discurso seja social democracia para alguns e o da segregação mesmo para outros que mostraram isso no último desgoverno.

Os ensinamentos e a cultura indígena que podem ser úteis pra nós também, os ensinamentos ancestrais dos negros com os quais temos uma dívida impagável, ficam nos manuais e sequer temos negros entre nós, e com este modelo nunca teremos.

Quantos negros tem nas escolas particulares, que não sejam de limpeza e segurança?

Ah, mas tem o dia do Indígena, o Zumbi dos Palmares…

Com edifícios cujas unidades vão custar de 15 a 20 mil o metro quadrado, que público alcançaremos?

Vamos reivindicar coleta seletiva, transporte público, mais verde nas ruas, vamos conviver com negros, com idosos, as mulheres andarão sem medo, as crianças andarão nas ruas, conversarão com um transeunte, um verdureiro? Talvez passeiem como passeamos com os pets, até a idade em que a agenda não permita mais. Tudo chega via delivery, sair pra quê?

Qual o impacto destes empreendimentos no aquecimento climático, nos descartes, no gasto energético, há preocupação com uso da água? As construções são eco friendly? Não sei, tomara tudo isso esteja sendo levado em conta.

A tendência é que os idosos, depois de ajudarem na criação dos netos , sejam confortávelmente instalados em comunidades próprias para eles, com todo tipo de atendimento e convivência de que precisam.

Velho com velho, criança branca com criança branca, rico com rico, a natureza privatizada e parques parecendo Shopping Centers. Nosso bordão é aquele da TV: “Tô pagando…”

Seguiremos com o nosso Apartheid, racial, etário, econômico. Sem histórias pra contar e mostrar.

Pra voltar ao título, tenho um sonho. De que nossas cidades sejam habitáveis, respiráveis, alegres, que as ruas sejam amigáveis, que pessoas circulem, troquem olhares, casos, sorrisos.

Que a gente saia da cidade pra conhecer lugares novos e não apenas para restaurar pulmões e corações e para dormir melhor. Que não precisemos “fugir”.

Pode não ser nada disso que relatei aqui, posso estar viajando, sendo pessimista, até ignorante, mas por via das dúvidas, vou registrar em fotos, o que ainda resta do meu bairro.

Se esta é a vida que estamos escolhendo, fazer o quê? Vai que é o melhor mesmo…

Adensemos, privatizemos, mas que tenhamos vida e vida em abundância nas cidades, já que são nelas que a maioria de nós viverá.

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