Apatia

Conhecem a história do sapo na água quente?

Um resumo: sapos são colocados na água fria e aos poucos ela vai esquentando. Os sapos não percebem ou se sentem confortáveis. A água vai esquentanto até atingir a fervura e eles morrem esturricado sem conseguir fazer nada. Não sentiram nem perceberam as mudanças.

Assim somos nós. Estamos sendo esturricados aos poucos, talvez nem mais aos poucos e esperando que um milagre aconteça pra nos tirar da fervura.

Esturricados pelo calor insuportáel mesmo, pelos eventos extremos do clima, assistindo a hipocrisa de um evento como a COP28, cheia de sheiks endinheirados e encharcados de petróleo, discursos de efeito, e embora necessária e em andamento ainda, sabemos que nada é para curto prazo e nem temos garantias de que as decisões lá tomadas serão cumpridas. Sou cética, confesso. A conferir.

Além disso, no mesmo momento da COP28 estão em curso guerras terríveis, outras por vir e nenhum desejo de pacificação, logo, pouco espero de nossos líderes.

A fervura chegou e não conseguimos mais pular. Seja porque estamos correndo atrás da sobrevivência, aceitando acomodados, dizendo que nada adianta, chamando mudanças de modismos, achando que é isso mesmo, fazendo ativismo on line, curtindo o apocalipse, e reféns de alguns poucos magnatas da tecnologia, que nos dão como brindes autopromoção, fama e grana para alguns, acesso a coisas legais em troca do nosso tempo, nossos dados e da nossa saúde mental.

Fazer o quê então?

Difícil, porque demanda uma conjunção política econômica complexa que escapa ao cidadão comum.

Mas talvez seja preciso radicalizar, usar as redes mais para compartilhar mudanças de comportamentos e menos caras e bocas e bate bocas, acompanhar perfis sérios de informação a respeito, prestigiar políticos engajados na causa, empresas realmente comprometidas com o meio ambiente.

Isso tudo serve pra gente fazer o que estão chamando hoje de letramento. Só a alienacão é que não cabe mais.

Precisamos reformular nossas festas, cuidar dos nossos desperdícios e excessos, direcionar nosso lixo corretamente, reduzir o consumo de plástico drasticamente, experimentar outros tipos de produtos de higiene pessoal e de casa sem preconceito, não levar nosso consumismo para os pets, eles não precisam, educar as crianças para ter menos coisas, reduzir o consumo de produtos de origem animal e por aí vai. É chato, é. Mas não tem outro jeito e não tem quem faça por nós.

Tenho me esforçado mas sei que não é fácil. O acesso às facilidades é contagiante, o sentimento de impotência é grande e frustante às vezes, somos treinados literalmente para consumir, mas ando preferindo me iludir fazendo algo pouco que seja do que me iludir com falsas promessas ou viver em negação.

Ninguém tem a verdade absoluta porque a pauta é muito complexa, mas com senso crítico dá pra pontuar e trilhar um caminho, que será tortuoso, com idas e vindas, mas criamos uma sociedade de consumo, competição e degradação e vamos ter de rever isso, pela nossa sobrevivência, e isso não é mais exagero.

Não adianta mais tampar o sol com a peneira, com o filtro solar 70, a roupa com proteção UVA/UVB, o ar condicionado. A fervura chegou, os nossos confortos básicos e necessários para a economia e a vida funcionarem estão em xeque e há pessoas que ainda nem alcançaram esses confortos como água, energia e alimentos.

Nem se a gente se esforçar muito dá mais pra se adaptar ao ambiente hostil que criamos.

Com dinheiro mitigamos um pouco, como sempre, mas por pouco tempo.

Minha nota de final de ano não é de otimismo, infelizmente. Mas confio na nossa inteligência e na nossa resiliência. Já estamos bem rodados por aqui. Depende de nós.

O meteoro somos nós.

https://g1.globo.com/meio-ambiente/noticia/2023/12/09/terra-esta-perto-de-atingir-5-pontos-de-nao-retorno-veja-quais-sao-e-entenda-a-crise-em-graficos.ghtml

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