Então. Mais uma polêmica movimentou as redes, notícias, colunistas e grupos de zap:
A fala do CEO do IFood de que em 10 anos não estaremos mais cozinhando.
Feriu de morte influenciadoras e defensores da comida de verdade, saudável e feita em casa.
Eu, cozinheira que sou, acho que tenho algum lugar de fala e falo do meu lugar.
Gosto de cozinhar mas não romantizo. Quem cozinha diariamente sabe o perrenque que é manter despensa e geladeira abastecidas, escolher todo santo dia o cardápio, agradar gregos e troianos, lutar contra os desperdícios, arrumar tudo, se atualizar.
A gente vive o paradoxo de ver a cozinha mudar de patamar, começando pela arquitetura, com cozinhas abertas, varandas gourmets, e centenas de programas culinários para todos os gostos e estilos e ao mesmo tempo buscando cada vez mais os deliverys.
Não é preciso ser nenhum expert para saber que cozinhar desde sempre foi tarefa destinada às mulheres, e portanto, pouco valorizada. Sabemos também que no Brasil, país escravocrata por excelência, nós, classe média pra cima, sempre nos servimos de empregadas domésticas e vimos a grita quando foi criada a lei da categoria que as equiparava a qualquer trabalhador, com todos os direitos.
Portanto, cozinhar não era chic. Ficou chic depois que homens, que só apareciam nos churrascos, começaram a se interessar pela culinária. Aquela do fim de semana, sabe? Pratos especiais, ingredientes especiais, todo o tempo do mundo, muitos elogios, egos inflados. E são tratados como chefs.
Quem quiser se aprofundar sobre o tema, recomendo o livro “quem vai fazer essa comida”, da controversa Bela Gil, que se baseia em dados sobre o assunto, pra colocar pingos nos is. Sei que muita gente não gosta do viés dela, mas vale a leitura a título de informação mesmo.
Seguindo.
Da mesma forma que a dinâmica das relações pessoais, a cozinha também ficou mais complexa. Cada um tem sua especificidade agora. Eu sou vegetariana, temos os veganos, os intolerantes ou alérgicos a alguns ingredientes, as crianças, que até certa idade não são mais expostas a açúcar e sal, os de dieta, os chatos pra comer, etc.
Temos os produtos industrializados que podem ser mão na roda mas podem nos adoecer também, temos rótulos que parecem bulas, temos terrorismos alimentares, temos falta de tempo, produtos excessivamente envenenados, assédio do marketing, e padrões de famílias muito variados.
Mas uma coisa é certa. A cozinha do dia a dia ainda é predominantemente feminina. O discurso de que todos tem de participar para mim também é pura utopia, principalmente hoje, com famílias pequenas, poucos filhos, e que são tratados como reis ou celebridades. Pronto, falei. Falo dos meus, inclusive.
Outro dia li um post exaltando a comida mineira onde constava uma foto de um fogão a lenha e, óbvio, uma mulher pilotando. O texto era mais ou menos assim. “melhor comida, e feita com amor”.
Me lembrei da minha querida cunhada já falecida, a Lita. Era exímia cozinheira e tinha em casa um fogão a lenha. Íamos lá de quando em vez e todos elogiavam a comida dela feita em brasas.
Uma vez ela me confidenciou que muitas vezes cozinhava no fogão a gás e colocava a comida nas trempes do fogão a lenha depois de pronta. “Ninguém aguenta esse calor, dizia”. Quem romantiza o fogão a lenha não sabe o que é esquentar até os órgãos internos na lida diária com ele.
A despeito da polêmica, acho muito importante valorizar a comida, se informar de onde vem, respeitar quem faz e quem serve, comer com o mínimo de ritual, agradecer. Mesmo que sua comida esteja sendo feita numa “dark kitchen”, alguém está lá na correria e provavelmente sendo explorado (a exploração só muda de endereço) para que seu pedido chegue em 10 minutos e você engula tudo em 5, porque o seu tempo e seu trabalho valem mais e a comida é apenas um combustível imediato.
Difícil fazer prognósticos, tudo muda o tempo todo. Tenho cá minhas bandeiras e escolhas pessoais, considero que saber cozinhar é um luxo que desdenhamos, mas sei da complexidade da vida atual.
Aguardemos os próximos capítulos.
Tá na mesa! ou está na portaria!