Registros de uma viagem

Fiz uma parte do Leste Europeu. Assim se diz no jargão turístico atualmente.

Na realidade, o que os pacotes chamam de Leste Europeu é a Europa Central.

Visitei, bem acompanhada, Berlim, Praga, Budapeste e Viena. Doze dias de andanças, muitos KM por dia, totalmente fora da zona de conforto, tateando em línguas difíceis, moeda e costumes diferentes, tentando, em poucos dias, mergulhar num universo tão diferente e distante do meu.

A gente já vai com muitas recomendações e palavras de êxtases com relação aos monumentos e a beleza das cidades.

Lugares que a gente visita olhando para cima o tempo todo, tamanha a magnitude dos castelos, igrejas, castelos e igrejas, castelos e igrejas.

Olhando pra baixo, gente, muita gente…

Regiões muito antigas para os padrões sul americanos pós invasões colonizadoras.

Tudo remonta a muitos séculos atrás, com histórias épicas de conquistas, guerras, reis, dinastias, construções, destruições, pestes. A resiliência é parte importante naquela região.

Olhando para cima não consigo deixar de pensar: como fizeram algo tão grandioso? Qual a engenharia? Porquê? Por quem?

Onde estão as mulheres nestas histórias contadas por homens poderosos, mártires eternizados em estátuas espalhadas por todos os lados?

Quem os mantia?

Nem é preciso dizer que tudo foi construído com suor e sangue, mantido com suor e sangue dos escravizados, vassados e afins.

Sei que estas divagações podem tirar o glamour do passeio, mas pra mim são inevitáveis. A riqueza sempre precisa ser ostentada, senão, qual a graça? Hoje se ostenta com objetos como bolsas, carros, relógios, ouro na comida, etc, bem antigamente se ostentava com construções momumentais, que no final das contas ficaram como legado histórico e muitos transformados em centros culturais, museus, e lugares de visitação turística e de registro de uma ou mais eras.

Com relação às Igrejas, tenho passado longe. Pra mim são monumentos, não espaços religiosos. Quando as vejo, lembro da passagem bíblica “Senhor, perdoe, eles não sabem o que fazem”. Uma opulência completamente fora da mensagem cristã. Mas tudo tem seu contexto histórico, reconheço, claro.

Interessante que em Praga, elas são muitas, mas a população é majoritariamente ateia, por influência do comunismo, dizem.

Esse passado histórico longínquo deixou marcas na população que passou da afronta dos reis e nobres, à tirania comunista e resultou em Estados de bem estar social até aqui, e não sabemos até quando.

Nos grupos de brasileiros, o complexo de vira lata grita ao se depararem com as modernidades, o espírito cidadão, a limpeza e outros quesitos que tanto valorizamos lá, mas não queremos aqui no final das contas. Ah, se fosse no Brasil… No Brasil nunca ia dar certo… Ao contrário do Brasil, aqui…

Me chamou atenção já nos voos, a abolição dos copos, talheres e embalagens plásticas, prática também estabelecida nos restaurantes. Nos supermercados, nada das abomináveis sacolinhas disponíveis. Temos de pagar pelas embalagens. Não dá pra saber, em tão pouco tempo, se é generalizado, mas parece que sim.

Inveja sim, dá pra ter com relação à mobilidade em todas as cidades. Opções várias ao automóvel. Metrô, bondes, bicicleta, patinete e espaço, muito espaço para se andar a pé e com segurança. Os idosos fazem uso de um andador de quatro rodas com um cesto na frente que possibilita autonomia para passear e fazer suas compras. Ainda assim há picos de trânsito e motoristas estressados.

Os imóveis para moradia parecem pequenos, mas as praças são muitas.

Por aqui temos pelo menos 3 farmácias por quadra, lá sâo poucas e não tão ostensivas como as nossas

Os legumes e verduras mais usados são: batata, espinafre, pimentão, berinjela, pelo que pude observar. Muito frango e carne de porco que tem o mesmo gosto, segundo o meu marido.

O que dizer dos pães bons e bonitos e da confeitaria bem menos açucarada que a nossa.

Fazem muitos embutidos artesanais também

O comércio está globalizado e comprar em euro tá complicado. Souvenir chinês pra dar com pau, como em todo lugar agora.

Nos passeios guiados que fizemos, me chamou atenção o português praticado pelas guias. Bem articulado, sem descambar para o portunhol. Achei chic.

Em Viena, cidade elegante, encontrei o ponto alto, que foi a água. Sim, a água potável em todas as torneiras e com totens dela pela cidade afora. Isso sim é ostentação hoje, que deveria ser utopia geral e irrestrita. Quem quiser se diferenciar, como sempre tem, pode comprar as águas com ou sem gás que custam uma fortuna, mas água limpa, bem essencial e sem plástico para todos já é um luxo só. Mas não deveria.

O frio intenso estava começando a dar as caras, e outra realidade vai se apresentar, com certeza. O sumiço parcial de turistas, o enclausuramento, e outro tipo de rotina que não vamos conhecer.

Cidades lindas, bem cuidadas, mas que também tem seus pedintes, ajoelhados e de cabeça baixa, ou abraçados a cães.

Confesso que vi beleza estonteante, mas não emocionante como já experimentei em outros lugares.

Da viagem em si, fica o registro do clima bom, da lua cheia nos acompanhando, das risadas e perrengues tão próprios de viagens, das companhias animadas, das experiências gastronômicas estranhas pra nós, das arrastações de malas pra lá e pra cá, das pessoas daqui que cruzamos por lá, com toda a ansiedade de experimentar tudo que foi indicado e planejado, o cansaço estampado nos rostos depois das maratonas diárias.

Uma experiência intensa que extrapola roteiros e agendas e que não cabe toda em um post.

Mas fica um pequeno registro.

(12 a 24 de outubro de 2024, com Ronan, Pitucha e Dico)

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