A palavra está gasta, vilipendiada.
Compartilho da angústia do escritor Julián Fuks, que escreveu a respeito um belo texto na UOl, ele próprio escritor se reconhecendo cansado das palavras. Ou do excesso delas.
Estamos na era da pregação. Não basta saber ou acreditar, tem de converter, convencer, lacrar e até ganhar dinheiro com ela. Muito, inclusive.
E não são só pastores e religiosos. Coachs, influencers, especialistas, pseudo especialistas, profissionais liberais, etc.
Tão logo algo controvertido é colocado em pauta, um evento, um fato político ou econômico, um filme, uma escorregada de alguém, imediatamente saem dezenas de análises, debates, artigos,conclusões, cancelamentos.
Não se espera a digestão, elaboração. Regurgitamos palavras, no calor da indignação, da emoção, da raiva e da necessidade de cumprir ordens dos algoritmos.
Todo mundo quer chegar primeiro, acreditando estar coberto de razão, de entendimento, de estar dando um furo ou a última palavra.
Pouco se conversa, muito se prega. Não só nas redes.
Nas relações também. “Mesmo quando há vontade de calar o mundo por um momentos, por uma tarde, uma noite, dá-se a invasão das palavras dentro da própria relação, vaza um diálogo, aquele tanto que se leu e se ouviu, toda a bibliografia da banalidade”., diz Fuks.
Na seara religiosa, a pregação saiu dos púlpitos e dos templos. Prega-se em filas, em carros de aplicativos, em vídeos, como papagaios.
Lembro de uma fala de Rubem Alves, em que ele dizia preferir a época em que as missas eram em latim. Não tinha que ouvir pregação, só a fala como mantra incompreensível..
Esquecem os pseudos religiosos que Cristo não só pregava, mas AGIA como acreditava e se retirava também. Ficava no alto de um morro dias a fio, isolado, silencioso, se abastecendo. Ou talvez se esvaziando.
Fuks tem esperança na literatura, “que com sua ventura de palavras, seja capaz de reinventar o silêncio que deseja ao seu redor”..
Da minha parte, à noite, tenho ouvido um pouco de música clássica, entretida apenas com o diálogo dos instrumentos sem vozes nem palavras, só as da minha cabeça.
Sinto saudade de quando um dia , diante de algo belo, triste ou emocionante, as pessoas apenas diziam: estou sem palavras.