Invisibilidades

No meu bairro tem um “mendigo” conhecido e inofensivo que perambula pelas ruas com a sujeira peculiar do morador das ruas, mas que conquistou a empatia das pessoas, que lhe dão alimento vez por outra na porta da padaria, ainda que ele não peça. Ele não fala nada, não resmunga, não aborda nem interage com ninguém.

Uso este gancho pra falar das nossas invisibilidades. Este rapaz, nestas condições indigentes, se tornou visível. Ele é o mendigo do Carmo. E ao mesmo tempo é socialmente invisível. Não  parece ter uma família que o acolhe, um trabalho, portanto, não contribui para o crescimento do PIB, nem para o INSS, nem tem plano de saúde. Não estuda, não cuida da saúde, da alimentação, não vê Master Chef  nem futebol, com certeza.

Ele existe.

É visível e invisível, depende do ponto de vista. É visível enquanto parte de nossas estatísticas de desigualdade e desumanização e invisível enquanto não pertencente aos papéis tradicionais da nossa sociedade: trabalhador, contribuinte, aposentado, ou alguém empenhado em mudar o mundo.

Ao me aposentar me deparei com o fantasma da invisiblidade. No instante em que me afastei das minhas atividades dos últimos 30 anos e abandonei meu crachá de funcionária pública, deixei de existir para a sociedade que nos impõe papéis, rótulos e funções para nos manter visíveis, úteis e “sãos”.

Escrevendo aqui, talvez esteja buscando a tal visibilidade, ou apaziguando todo o medo que carrego e que as pessoas e o mundo colocam em nós, já que nos transformamos em seres “produtivos”.

Ainda tenho minhas visibilidades sociais e afetivas, já que sou mãe, esposa, filha, pago impostos, tenho internet e TV a cabo, casa de campo e vejo programas culinários.

Ok, a maioria está lutando para sobreviver e querendo ser amado, mas não só. Vejo indigência para todo lado que olho. Nos condomínios ou nas ruas, nas Igrejas ou nos bares. Todo mundo lutando também para ser visto.

Como lidar?

Aceita ser que dói menos…talvez.

“Existirmos, a que será que se destina…” Caetano

 

2 comentários em “Invisibilidades

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