Somos seres, além de racionais, sencientes, parece óbvio dizer isto, mas hoje talvez não seja. Suspeito e tenho visto mais a troca do nosso arsenal de sentimentos pela indignação pura. Ela é acionada de fora pra dentro a todo instante pelos fatos e notícias infinitas que chegam, acontecem e procuramos, nos chocam ou nos deixam atônitos.
Assim, o que fazemos, falamos e pensamos nem sempre reflete o que somos realmente. Podemos estar no automático, levados somente pelas circunstâncias e pressões do momento ou pelas crenças dominantes. É interessante para este “sistema” imperante no mundo que fiquemos desnorteados, fora do nosso eixo, e a indignação é ótima pra isso.
Quando precisamos de um respiro, viajamos, compramos, comemos, malhamos ou nos dopamos com qualquer coisa….depois voltamos e seguimos vivendo em espirais.
A tecnologia, as mídias e as redes sociais também expõem, paradoxalmente, nossos instintos mais primitivos de alerta e reação. São as pilhas da indignação.
Senciência é algo que aflora de dentro pra fora. Difícil de acessar já que ficamos sempre na superfície de nós mesmos, dos acontecimentos, atropelados pela avalanche de informação que não conseguimos digerir. E adoecemos, e não dormimos e ficamos depressivos, medrosos, agressivos ou passivos e nos sentindo impotentes. Até nossos momentos “fofos” hoje estão carregados de superficialidade, ninguém está “inteiro”.
Sentir e lidar com os sentimentos parece agora frescura, piegas e fora de contexto. Indignar, necessário muitas vezes, confronta, e temos a sensação de estarmos mudando alguma coisa. Sentir pode levar à empatia, compaixão e a algum tipo de escuta, que, aliadas à racionalidade, podem nos levar a ações mais consistentes, quem sabe.
Ferramentas há, mas preconceito também, já que acessar qualquer coisa fora da racionalidade pura é tido como alienante (se jogar na frente da tv ou do smart também não seria?) ou esotérico e religioso. Vivemos a ilusão de que somente com ela “sozinha e no comando” estaremos aptos a “boas decisões” e resultados. Será?
Tudo isso nos afasta de pequenas práticas, rituais e atividades que afloram os sentidos, que podem ser desde uma contemplação, uma respiração, uma música ouvida com atenção, um encontro, arte, brincadeira, um trabalho manual, um hobby, meditação, uma vela acesa com uma intenção…nos reportar a algum santo, entidade ou a alguém inspirador(a), porque não? Ou até desligar tudo, fazer nada e apenas se ouvir.
O ritual ou a pausa, desde que genuínos e constantes, nos lembram que não controlamos tudo, que não temos que competir, opinar e julgar o tempo todo, acessa nossa intuição e nos remete ao “mantra” ensinado pelo professor Hermógenes: “entrego, confio, aceito e agradeço”, o que não significa sentar e esperar ou se conformar, mas agir com qualidade e inteireza, se respeitar e ao outro, parar, reverenciar as conquistas, e entregar o que não nos couber mudar.