Réquiem da caligrafia

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Sempre tive uma relação forte com caligrafias. Durante minha vida escolar, ter uma letra bonita era uma busca. Fazia trabalhos em papel almaço (os mais jovens, deem um Google), e me preocupava mais com a letra e o visual final do que com o conteúdo.

Imitava letras, achava engraçado pessoas que usavam um círculo na letra  i ao invés de um ponto. Pra mim, pessoas importantes tinham aquela letra mais deitada. Já no trabalho, me admirava com juízes que despachavam com letras bonitas e pelas letras nos processos imaginava a personalidade de cada um. Claro que tudo isso acabou e a digitalização massificou a caligrafia. Todo mundo escreve igual, pelo menos na forma. A forma importa afinal?

A aceleração das atividades, não permite mais “bordar” letras. Da mesma forma que o Whatsapp está fazendo as pessoas prescindirem dos encontros pessoais.

Embora não seja, sei que soa saudosista achar “esquisito” a extinção da letra cursiva, mas sempre acreditei, talvez erroneamente, que nossa caligrafia carrega ou carregava nossos traços e nossas marcas pessoais. Como uma digital que agora se perde.

O mundo virtual deu a todos a ânsia de dizer e a rapidez do teclado deu vazão a este desejo verborrágico que nos afoga em “narrativas” diárias, em avalanches de teses, bate bocas, desabafos e possibilitou também o compartilhamento de ideias, mensagens e realizaçôes, mesmo que virtuais. São as contradições humanas. A letra cursiva não acompanha mais nossa aceleração mental.

Talvez lá na frente, sentiremos falta, e resgataremos a caligrafia, a escrita “sentida”, curtida, slow, como estamos tentando resgatar outras ferramentas e outras facetas da nossa humanidade, da nossa cultura. Afinal, cultura é isso, um ir e vir, movimento, experimentação, tentativa e erro, criação.

Ou ficará somente como registro histórico nos cadernos de receitas das nossas avós.

Não temos tempo, há muito o que dizer, fazer, aprender, ler. Nem papel pra gastar com escrita cursiva. Escrevemos para as nuvens.

Eu mesma não reconheço  mais minha letra.

Hoje busco novas formas de me ler, me entender, e de me conhecer.

No mais, é tudo “Times New Roman”

 

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