Minha jornada vegetariana

Há muito tempo que a carne é questão pra mim. Nunca soube explicar, e num primeiro momento  o foco parecia ser a nutrição. Achava difícil porque meu ambiente sempre foi regado a churrasco e a uma verdadeira apologia à carne. Também porque o vegetarianismo nos seus primórdios era ligado a hippies e macrobiótica, daí a estranheza e a sensação de limitação:  arroz integral com gergelim era o cardápio base. Até que um dia um amigo do trabalho me emprestou o filme A Carne é Fraca. Foi um choque e um start.

Quando diminui o consumo pela primeira vez, ainda havia a preocupação com as “substituições” da proteína e surgiu no mercado os produtos de soja: a tal “carne de soja”, subproduto do grão, um lixo que a indústria nos empurrou dizendo ser bom. Experimentei mas nunca me adaptei com a coisa. Com filhos pequenos, correria, costume arraigado e pouca informação disponível, sucumbi.

Parei algumas vezes por alguns períodos, mas sempre voltava.

Praticando yoga e sempre interessada pelas naturebices culinárias, comecei a acessar novas informações, novos grupos, novas receitas, muitas leituras e documentários, e a motivação veio forte e parei de vez. Hoje as pesquisas vem esclarecendo alguns mitos sobre o consumo de carne e laticínios, a culinária vegetariana se abriu, e há um bom suporte de informação, profissionais e produtos.

Num primeiro momento eu dizia que havia parado de comer carne e não que era vegetariana, talvez me resguardando de eventuais “recaídas” e por ter resistência a rótulos e a esta necessidade que temos de nos colocar em prateleiras fixas. Hoje já me perguntam se sou vegana, um movimento que vem crescendo absurdamente e que acompanho bem de perto. Estrito senso não. Mas minha alma já é vegana no sentido de conseguir enxergar que há outro ser sendo maltratado e escravizado do outro lado da gôndola e aquelas partes congeladas embrulhadas em isopor são animais, seres sencientes.

Nos apegamos à memória da época em que os produtos de origem animal vinham direto dos laboriosos pequenos  produtores e embora ainda resistam e haja um movimento neste sentido, não é o que acontece no grande mercado. Estamos lidando com uma indústria gigante, poderosa e agressiva. A última notícia* dá conta de que Sadia e Perdigão vão se unir para lançar uma marca nova de embutidos “mais barata”. Leia-se: se unem para dar fim aos seus resíduos, (chamados por eles de “excedente de matéria-prima”), fabricando gororobas baratas  dando a entender que os menos favorecidos e os incautos terão mais acesso à proteína e não a doenças e alergias. **

É fato que já aliviei incômodos físicos diversos com mudanças alimentares, mas minhas escolhas atualmente englobam o impacto ambiental, a ecologia interna e externa, a saúde, o animal, o lixo produzido. Todo mundo já sabe dos impactos da agropecuária no desmatamento, no consumo de água, nas monoculturas commodities que existem em função disso, do agrotóxico, de amar os pets e ignorar os outros animais como se eles não sentissem igual, das doenças pelo consumo excessivo de carne e seus derivados, além de suas influências sociológicas, sexistas e sutis. Todo este sistema que na real é predatório, iníquo e violento está sendo colocado em xeque. Pesquisas e informação já tem de montão. Mas o tema é espinhoso, eu sei.

A falta de conexão com a origem dos alimentos e com os alimentos in natura é gritante e conveniente para evitar questionamentos. Com exceções, muitas crianças hoje não sabem ou não saberão que comem galinhas, porcos e bois, o que seria bom para lhes dar autonomia de escolha mais na frente. No prato delas vem produtos com nomes genéricos de hambúrguer, nugget ou “carninha”. Para muitas, galinha é a Pintadinha e porco é a Pepa.

A gente costuma aderir imediatamente a toda mudança tecnológica e a priori qualquer uma é boa. Mas para algumas mudanças somos reticentes, fechamos os olhos para as realidades, e nestas horas nos apegamos às tradições para deixar como está, mesmo que escândalos como o da Friboi tenham aberto uma fresta dos bastidores da produção de carne e da sua influência política e econômica. Preferimos não aprofundar e esquecer rapidinho, e não ligar nossos hábitos com as questões que acontecem à nossa volta. É uma cegueira “saramagueana”. Preferimos achar que como consumidores não influenciamos as políticas e os políticos. É complicado mesmo, tem sido pra mim. Bate preguiça e a sensação de que uma andorinha não faz verão.

Voltando à minha experiência, que tem impactado na minha visão de mundo, na minha saúde e nas minhas relações. Não é fácil, depois que a gente introjeta a mudança, conviver com uma cozinha carnista, uma cardápio festivo centrado na carne ou um menu de restaurante 99% de carne e também porque está no meu dna cultural e de sabor a culinária baseada na carne. É a parte II do meu processo. Como lidar.

Mesmo com a culinária a base de carne prevalecendo, acredito que já é hora do mundo se abrir mais para outros cardápios com mais naturalidade, sem tratar apenas como um “nicho de mercado” ou para atender alérgicos e intolerantes a algum ingrediente e ficar compartimentando as pessoas e os lugares. Já está acontecendo, ainda bem.

Mas tudo é uma caminhada, e não sei das minhas escolhas amanhã, quero leveza também e não amarras, mas já ficou natural, não me sinto um ET nem meu corpo se ressente tanto, embora no começo tivesse mais fome. É um desafio empoderador, de sair do automático, de experimentar outros ingredientes, outros sabores, outras vertentes culinárias. Com já disse, uma mudança desta não é fácil e nem tudo é bom, ficar na bolha é melhor e cuidar de não entrar em outra também é um desafio. Tenho aprendido muito.

Mas a busca é por um pouco de inteireza e não por dogmas ou perfeição.

*http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2018/01/1949083-brf-lanca-marca-para-baixa-renda-com-sobras-de-sadia-e-perdigao.shtml

** https://exame.abril.com.br/mundo/oms-poe-na-mira-embutidos-e-carnes-por-risco-de-cancer/

2 comentários em “Minha jornada vegetariana

  1. Que legal, Lena! Pois é Lena, aqui, em casa, temos uma vegana, a Margarete. E com ela, praticamente e mais ou menos, fomos atrás. Uma comida saborosa não precisa, necessariamente, ter carne. Sabendo usar uns temperinhos, tudo fica gostoso e a natureza agradece!

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  2. Um texto maravilhoso, mas uma onda de vida sempre vive às custas de outra. Já dizia um grande espiritualista: quando respiro, o ar morre.” Os animais possuem um corpo de desejos com o nosso e a carne transmite para nosso corpo físico, uma substância chamada catecolamina, que traz o “choque da morte”, daí nosso pavor de morrer. O alimento carnívoro e o álcool foram de primordial importância no progresso do mundo. Se não fossem eles, não desfrutaríamos hoje de muitas comodidades, nem dos aparelhos mecânicos que dispensam a mão de obra e fazem com que a vida no mundo ocidental seja mais fácil. Não é o que entra pela boca o que mancha, mas o que sai dela.”Evitar a tragédia dos animais seria a conduta mais sábia, pois faz aflorar o Espírito do Amor”. O ser humano está amadurecendo para o vegetarismo ético(não matar), mas estamos muito longe de podermos considerar nosso corpo como um templo tríplice.

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