Vive-se ou milita-se?

Há uns dias atrás, postei uma pergunta provocativa no Instagram: vive-se ou milita-se?

Neste mundo cada vez mais complexo, somos diariamente colocados em modo confronto, ou temos, a todo momento, que fazer escolhas que vão impactar o mundo, a cidade e a nós mesmos.

Vivemos em militância, na vida real e na vida virtual. E ela hoje não se resume à política institucional tradicional, que por si só já é um jogo bruto.

Árduas também são as seculares e ainda atuais e necessárias militâncias contra o racismo, a luta contra desigualdades sociais e as causas LGBT e feminista.

Mas militamos também quando escolhemos o que comemos, onde comemos, o que compramos, militamos quando escolhemos como nos locomover, quando ocupamos algum espaço. Até o carnaval, uma diversão, virou espaço de militâncias diversas.

O nascimento e a maternidade/paternidade viraram uma militância.

O trabalho, óbvio, para quem tem um e a possibilidade de alguma escolha, virou militância: só faço o que amo, tem que ter propósito, tem que impactar, tem que ter alta performance.

A meditação, prática milenar, foi incorporada pelo ocidente como mindfulness, e também se transformou em instrumento de “militância”, pra melhorar nosso rendimento e não para tentar nos fazer aterrissar em nós mesmos neste mundo de distrações.

O corpo virou objeto de militância. Os reis e as rainhas fitness estão aí pra impor um padrão e surrar o corpo como a um Judas. E tem a militância anti fitness…

A arte também se arma e mostra seu viés combativo…

Embora a gente se orgulhe da longevidade que estamos alcançando, nossa sociedade valoriza a juventude eterna, e ser velho é sinônimo de desleixo, portanto, envelhecer (sem ter que voltar à adolescência) e ser respeitado é uma militância…

E finalmente, poder morrer dignamente também começou a ser uma militância…

Toda esta problematização no final das contas faz parte da nossa caminhada civilizatória , mas sinto no ar um ambiente de patrulha e beligerância, com a gente mesmo e com o outro, que nos coloca em constante estado de alerta e reação, com pequenas pausas para fotos e selfies.

Porquê lutamos tanto afinal?

Nossa cultuada racionalidade às vezes nos cega.

No nosso peito também bate um coração, ávido por dar e receber amor, por se transformar em nosso maior instrumento de transformação e de despertar.

E se a gente desse uma chance pra ele?

2 comentários em “Vive-se ou milita-se?

  1. Você está cem por cento certa quanto à militância. Eu por mim já estou cansada dela em todos os aspectos. No Dia da Mulher só se via mensagens sobre ” a mulher guerreira”. Cansei de ser guerreira , de ser militante , se ser não sei mais o quê. Queria ser amorfa. Será que consigo, ainda em vida?

    Curtir

  2. Também cansei de querer sempre ser a melhor em tudo, em casa, no trabalho, para as filhas. Queria ser eu, só eu, sem cobranças e sem saber para onde ir. Só……..

    Curtir

Deixar mensagem para Pitucha Cancelar resposta