Puxando pela memória

Outro dia li ou ouvi uma dica interessante a respeito de “cuidar da memória”, (quem na minha idade não quer né?), que nos orientava a sempre antes de dormir lembrar de tudo o que fizemos no dia, mentalmente mesmo.

Não vale ser genérico: malhei, trabalhei, almocei, trabalhei, jantei, li jornal, dormi, isto é, cumpri a agenda ou não.

Lembrar do que comeu nas refeições, com quem, como, o que rolou no trabalho, o que aconteceu ou observou nos trajetos, o que aprendeu, o que leu, com quem cruzou ou interagiu ao longo do dia, que vídeos ou séries assistiu, se malhou, o que comprou, o que pagou, o passeio com o cachorro, ou alguma música que ouviu, louça que lavou, fruta que descascou, enfim, e que sentimentos permearam tudo isso (por minha conta).

Resolvi experimentar: mesmo eu que ando sem uma rotina fixa e com poucas tarefas obrigatórias, me dei conta de como detalhes fazem a diferença no balanço dos nossos dias…

Destrinchar o dia, isto é, nos lembrarmos do que fizemos, do nosso astral, das informações que realmente nos impactaram ou de coisas aparentemente simples, nos dá a dimensão do quanto estamos no automático e do quanto de energia sai pelo ladrão e é desperdiçada e principalmente das atividades mais prosaicas, mas pouco curtidas.

A onda e a “necessidade” hoje é ser multitarefa. Há até um certo orgulho de algumas pessoas de ter que fazer várias coisas ao mesmo tempo, ter diversas abas abertas no laptop, atender a tudo e a todos o tempo todo , até andando na rua. Mostram o quanto são demandadas.

Embora seja uma realidade, a gente não imagina o desgaste que isso provoca e como pode ser ilusório. Já há pesquisas neste sentido (problematização) e a fatura de sermos engolidos e não seletivos no que fazemos nos vai sendo apresentada, com altos índices de depressão, ansiedade, insônia…nem crianças escapam, e de que isso não significa ser realmente produtivo. Confessemos: muita gente faz pose de ocupadíssimo, mas às vezes está zapeando e/ou batendo boca nas redes sociais e procrastinando.

Li dois livros estes dias, bem auto ajuda, confesso e recomendo, que tratam disso: um se chama Essencialismo, que revela esta questão no universo corporativo. Nele diz que os alemães já trabalham com o lema: “menos, porém melhor”. O livro também me apresentou uma nova patologia psicológica: “fadiga decisória” (alguém?). Nos lembra também de que é preciso perder para ganhar. Parece tudo óbvio, mas estamos vendo por aí que não.

O outro se chama Ikigai, que pesquisa o estilo de vida de cidadãos muito longevos numa cidade japonesa. O livro fala da rotina de movimento e atividades físicas constantes mas não necessariamente exaustivas, convivência e troca comunitária, alimentação não só boa, mas apenas suficiente, dar valor às atividades cotidianas e o tal de estar presente no que está fazendo no momento.

Falando em orientais, nas artes marciais, e até na capoeira, às vezes os oponentes dão passos pra trás, o que não significa retroceder, nem se acovardar, mas rever estratégia, criar um distanciamento pra ter uma ação mais efetiva depois. No futebol também às vezes o time se retrai pra se reorganizar taticamente.

Rebobinar o dia de repente pode ser este passo para trás que vai permitir qualificar melhor nossos dias, ações e escolhas pra frente.

Nada é garantia de nada, estamos na chuva pra molhar, muita coisa foge ao nosso controle embora a gente relute em aceitar, mas um pouco de plenitude no dia a dia não faz mal a ninguém.

P.S. Para uma leitura mais sociológica/filosófica, a dica é: A Sociedade do Cansaço, do coreano Byung-Chul Han.

3 comentários em “Puxando pela memória

  1. Lena, dentro do assunto de multitarefas e de ocupadismo, (existe essa palavra?) vi ontem uma reportagem falando do excesso de empregos para jovens no Japão e uma jovem recém-formada dizendo que dentre as muitas ofertas de empregos que recebeu, ia aceitar uma que lhe desse dois dias de folga por semana e não tivesse horas-extras. Dizia ela “quero viver”. Está certa ou não? Quem dera todos pudessem fazer isso.

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  2. Leninha,
    Acredito que ao já termos trabalhado muito, passado por várias situações, conhecido várias e várias pessoas, envolvido em várias situações, atualmente a experiência nos remete a querer aproveitar muito a vida e trabalhar nossa cabeça para nos desvencilhar de mídias , zaps, internet, sem deixarmos de utilizar.
    Olhar para os olhos das pessoas, pegar nas pessoas, sentí-las .
    É … mas os tempos são outros né. Mas… nós temos que sermos e não perdermos a essência de humanos.
    Um abraço. E parabéns pelas reflexões.
    atte.
    Wellington

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