Meu pai

É consenso e motivo de admiração entre todos que conviveram com meu pai seu cabedal intelectual construído desde a tenra idade. E como colocava na vida e nas relações sua curiosidade infinita.

Confesso que no meu momento atual, andava questionando com ele próprio esta nossa forma mental e intelectualizada de resolver as coisas e viver. Tudo muito de fora pra dentro.

Mas sabia que ele tinha uma forma de lidar com a leitura e o estudo que fazia com que o saber não fosse apenas um acúmulo de informações desconexas ou um instrumento de poder.

As pausas, os seus rituais, o sono, as caminhadas, a contemplação,os momentos em silêncio eram também uma marca dele.

Mesmo nos momentos mais tumultuados, com crianças pequenas, três turnos de trabalho, meu pai sempre fez a “sesta”, algo hoje inconcebível pra todos. Sempre teve uma rotina matinal que extrapolava um banho corrido. Tinha técnicas de respiração e de yoga e sempre se permitiu dormir., (embora nos últimos tempos já lançasse mão de um remedinho). E colocava limites nas pessoas e na ingerência externa. Vivia entre o entusiasmo e o recolhimento, a indignação e a amorosidade.

A gente hoje acumula: saber, stress, informação, ansiedade e não sabemos onde descarregar o excedente, estabelecer os limites, onde encontrar um mínimo de paz. O fora comanda o dentro.

Nos momentos livres acionamos o tablet, os vídeos, as séries, a academia, as redes sociais, os problemas, as músicas, e nos mantemos ligados 100 por cento do tempo e desconectados de nós mesmos.

Acumular saber não basta e ele sabia disso. Absorver, filtrar, lincar, usar e distribuir o saber é necessário e exige pausas, a abertura de espaços e ter atenção no outro pra não ficarmos pedantes, arrogantes e distanciados da realidade.

Tudo isso não o transformou em um Buda ou um iluminado, ao contrário, tinha muitos arroubos de impaciência e intransigência, principalmente nos últimos tempos, talvez pela idade e já contaminado pela era tecnológica que nos engole e nos deixa reativos., mas norteou o seu estar no mundo e estar dentro de si.

Há o saber sistematizado, e há saberes, que são acúmulos de experiências pessoais, de grupos, e ancestrais até. O saber ilumina e desata nós, os saberes nos empoderam, nos conectam uns com os outros e principalmente com a gente mesmo.

O saber do meu pai, que não ficou registrado nos seus livros, foi com ele, mas carrego comigo alguns de seus saberes que não vamos encontrar na sua vasta biblioteca.

E sou grata por isso e principalmente por todo amor que ele teve por nós e pela vida.

Namastê, pai!

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