O tempo do: “será?”

Na minha sala, estridente

o relógio marca as horas

mas em mim o tempo age

si-len-c-i-o-sa-men-te

Com o aumento da longevidade, a maturidade agora está “na moda”. Fala-se muito do que fazer, como viver bem neste período cheio de altos e baixos (como se todos os outros não fossem), como manter certa dignidade estética, de discurso, de saúde física e emocional e de comportamento.

Caimos no mundo do “tem que”… tem que se exercitar, tem que fazer check ups, tem que se reinventar, tem que estar em movimento, tem que cuidar da mente, tem que se alimentar bem, tem que aceitar, tem que interagir, tem que rir, tem que viajar, tem que evitar isso ou aquilo.

Querem que a gente tenha uma vida tão movimentada quanto quando estávamos mais jovens e na ativa.

Será?

Pra mim, a maturidade significa se perguntar a todo instante: será?

Em primeiro lugar, fazer muito e não parar é diferente de uma vida intensa. Podemos cumprir milhões de tarefas ao longo de um dia e não estarmos presentes em nenhuma, e à noite não lembrarmos do que comemos no almoço.

Quando mais jovens, não dá tempo mesmo, somos atropelados pelas demandas da vida adulta, de trabalhar, sobreviver, juntar algum, ser reconhecido, namorar, não deixar passar nada, mesmo quando algumas situações não condizem com nosso ser. Mesmo quando um monte de coisas nos são impostas. Faz parte, inclusive pra gente ter repertório e sabermos do que gostamos e do que não gostamos.

Aí vem a maturidade e esta pergunta aparece e prevalece. Será?

Gosto mesmo, quero ir, preciso disso, estou disponível, quero assistir, tenho que agradar a todos? O que me impede de?

Se a gente chega nessa fase sem um mínimo de auto conhecimento, ou se vivemos o tempo todo no automático, estas perguntas não surgirão e seguiremos atendendo a todos os “tem que”, porque, inclusive, muitas vezes é mais fácil.

Sim, é um tempo de mais liberdade num sentido, mas quem não tem medo da liberdade? Quase todo mundo quer, mas sabemos construí-la? O estado de alguma liberdade é mesmo uma construção. Se a gente está apegado a um monte de coisas, de crenças, padrões, dependências, fica mais complicado. E também pode ser um período de ansiedade, pois podemos fazer muito ainda e nossa linha do tempo vai encurtando.

O tempo vai agindo silenciosamente, e a cada olhada no espelho vemos o resultado. E queremos negar, consertar ou deixar pra lá. Todas as opções são válidas. Difícil é escolher e assumir as escolhas.

E, como sempre acontece quando aparece um novo filão de consumidor, as propagandas chegam com tudo, oferecendo milagres para o rejuvenescimento, porque a maturidade está na moda mas ainda não é bem aceita e pra variar, o alvo preferido são as mulheres. Aos homens é mais permitido o envelhecimento “natural”. Os coroas chão chamados de “charmosos”, as mulheres, se muito emperequetadas, são chamadas de peruas, se não, viram as desleixadas.

Manter a velocidade dos 30 anos não dá, parar também não. Mas podemos ir mais devagar, fazer uma coisa de cada vez, com mais calma, selecionar mais, talvez esta seja a “graça” da maturidade, que não é glamourosa como querem nos dizer, mas também não precisa ser insossa. Estou nesta busca.

Assisti a uma entrevista com a controvertida atriz Cássia Kiss e ela debochadamente disse que tem 62 anos, parecendo que tem 350. Faz sentido, se conhecemos a tragetória dela.

Podemos dizer sim para muitas coisas, mas também já aprendemos ou deveríamos ter aprendido a dizer alguns nãos sem sentir culpa. (Tem um filme divertido sobre isso com o Jim Carrey chamado Sim Senhor)

Depois que cumprimos as missões impostas no berço — ter uma profissão, casar e procriar — passamos a ser livres, a escrever nossa própria história, a valorizar nossas qualidades e ter um certo carinho por nossos defeitos.
Somos os titulares de nossas decisões. A juventude faz bem para a pele, mas nunca salvou ninguém de ser careta. A maturidade, sim, permite uma certa loucura “
Martha Medeiros

Será?

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