Carta às meninas

Não quero ver seus braços sempre em riste, sua voz gritando palavras de ordem.

Não quero te ver em relacionamentos abusivos, assediada ou molestada física ou psicologicamente.

Não desejo sua obediência a qualquer padrão ou à busca de ser qualquer coisa que não queira pra agradar (ou desagradar) alguém.

Mas pode ser que precise, que aconteça ou que você obedeça. Não conseguimos ainda. E precisarão muitas gerações mais. Nem sabemos onde chegaremos ou onde queremos chegar.

Não se culpe. A culpa é nosso estigma.

Mas dá pra abaixar os braços, estendê-los num abraço, numa roda, numa dança. Nem tudo é luta. Nem tudo é medo. Nem tudo é disputa.

As palavras de ordem primeiras deveriam ser conhecer-se, tocar-se, amar-se. Estar só e bem acompanhada. Estar junto mas inteira. Não violar-se a si própria antes de tudo.

Reconhecer-se e cuidar-se em todas as suas fases…

Suave, vulnerável, guerreira, sábia… somos muitas, somos cíclicas, somos complexas… nos querem numa forma só. A forma da obediência ou a do enfrentamento.

Podemos gerar. Não só seres, mas novas formas de viver, relacionar, trocar.

Gerar é benção e dor. Lágrimas e riso.

Sempre que der, escolha abraçar…

Belo Horizonte, 8 de março de 2020

(Para Rosa, Anita, Serena)

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