Agora somos todos do lar

“Peça para eu arrumar uma cama e estrague meu dia. Vida doméstica é para os gatos. “

Me deparei com esta frase atribuída à Martha Medeiros e fiquei pensando: viramos todos gatos então, com o isolamento imposto pela COVID

Da minha parte, tenho a sensação de que para uma casa parecer arrumada há duas condições: fogão limpo e cama feita. Duas coisas chatas de fazer. Pode até ter umas louças dentro do bojo da pia, um sapato fora do lugar, mas se a cama estiver bagunçada e o fogão sujo, tudo parece um caos.

Não gosto de fazer cama, mas ao fazer, sinto que comecei o dia bem. Mantenho o luxo de ter uma empregada doméstica alguns dias na semana que esticará meu lençol se eu não o fizer. Mas me incomoda e tenho meu jeito próprio de fazer. Um ritual até.

Há dias em que a colcha fica esparramada pelo chão. Tenho coisas mais urgentes ou mais interessantes pra fazer. E uma necessidade de transgredir. Portanto a arrumação da cama é um termômetro.

A vida doméstica nos absorve e não é para gatos. Os gatos usufruem dela. Nós muitas vezes nos ocupamos mas não usufruimos dela.

Sempre tem alguém para dar conta dessas lides domésticas que tanto menosprezamos. Quase sempre mulheres e não gatos. As domésticas, as diaristas, as mães, as chamadas “do lar”, a que cumpre três turnos…

Sei o que ela quis dizer: há um mundo muito mais interessante lá fora, nos livros, nas escolas, no trabalho, nos bares, na internet, nos cinemas e teatros, do que se preocupar com limpeza de casa ou o que comer no almoço ou no jantar.

Com a obrigatoriedade de ficarmos em casa, o lar está sendo ressignificado. Virou local de trabalho, escola, prisão para muitos e o trabalho doméstico virou protagonista do nosso tempo, da nossa atenção nos separando do caos que reina externamente.

A engrenagem de uma casa é complexa, acho que deu pra perceber. Organização, limpeza, administração do alimento, das roupas, pets plantas… compras, descartes. Uma engrenagem que não para e nos deixa com a sensação de que estamos enxugando gelo. Acabou de fazer, tem que fazer de novo e de novo… e batalhar pra ter o engajamento de todos, a parte mais complicada.

Os equipamentos ajudam, mas apenas ajudam.

As redes sociais e os programas de culinária tentam glamourizar o cozinhar, sem mostrar os bastidores das panelas sujas e os que assistiam para fazer “aquele” prato eventual no fim de semana e tirar foto, estão vendo que o batido da lata é outro.

Um mínimo de organização, limpeza e rotina nos garante pelo menos a sanidade básica pra passar por este tsunami.

Mas o fato é que muitas diaristas já estão sendo convocadas para dar uma geral, e as pessoas vão “abrindo o bico”.

Prova de que a vida doméstica não é para gatos, é para fortes.

6 comentários em “Agora somos todos do lar

  1. É para fortes e não para quem já passou dos 80, que tem problemas de coluna, de artrose e para quem não gosta principalmente de passar roupas, que agora vão se alisar no próprio cabide.

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  2. Concordo plenamente Lena!!!!! São pra fortes!
    Ultimamente tenho curtido mais a cozinha. Pratos diferentes, não o trivial, da segunda a sexta. Meu forte sempre foi arrumar. Mas realmente o serviço doméstico não tem fim!!!!! Muitas coisas estão sendo modificadas, adaptadas e simplificadas para esses tempos da Covid. Principalmente pra quem tem que trabalhar modo Home Office!!!!

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  3. Em um dos muitos minutos, de uma das muitas horas que passo na cozinha naquele lava-panela-seca-panela, me pergunto se não vivi aquilo ontem. Limpa a comida, descasca, prepara, tempera, guarda, lava a louça, senta, come… Poucos dias depois, quando acabam as sobras, o processo recomeça: limpa, descasca, prepara, tempera, guarda, lava a louça, senta, come… Esse texto – que já leio pela terceira vez – me fez pensar em ocupar menos e usufruir mais. Quem sabe se os gatos não têm uma coisa ou outra para nos ensinar? 🙂

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