Ontem, 05 de maio, chafurdada nesta quarentena, fui impactada com duas mensagens que dizem respeito à velhice e ou à morte. Uma, um vídeo do Oswando Montenegro romantizando um pouco a velhice, outra, foi a notícia da morte de Flavio Migliaccio, que desistiu da vida. A velhice para ele se tornou insuportável, principalmente diante das circunstância pessoais e atuais, as brasileiras em particular.
Nada nos enche mais de orgulho hoje do que mostrar os números da nossa longevidade. Queremos viver muito, mas, paradoxalmente, não queremos envelhecer. Realmente há recursos para termos uma velhice plena e saudável. Mas não deixa de ser velhice com todos os estigmas que isto representa.
Quem reza direitinhho a cartilha do exercício, da boa alimentação, da leitura e da socialização, tem chances de ter uma velhice mais suave, a gente sabe. Mas até onde fazemos as coisas para “chegar lá” bem ou por medo de dar trabalho?
No nosso mundo de alta performance e alta produtividade, ser velho significa onerar os cofres públicos, os sistemas de saúde, e uma inconcebível ociosidade.
Nas culturas ancestrais ou antigas de qualquer civilização ou tribo, o idoso era reverenciado, era referência de sabedoria.
Hoje, o idoso é estorvo nas filas, nos transportes, para filhos sem tempo e sem dinheiro e sofre bullying dos mais jovens que chegam achando que já sabem tudo, que riem quando os pais ou avós não conseguem lidar com a tecnologia, como se a vida se resumisse a isso.
Fico pensando: há uma forma de se “preparar” para a velhice, para além da independência financeira? Para não nos tornarmos velhos ranzinzas, que passam o dia dizendo que no “meu tempo era melhor” ou “Eu sabia criar filho”, ou ainda, “hoje ninguém respeita ninguém”, etc? Ou ser ranzinza é uma prerrogativa da velhice? Vejo muitos jovens ranzinzas e sistemáticos já aos 30 e poucos anos…
A pandemia tem deixado expostas todas as nossas mazelas enquanto seres que moram de aluguel neste planeta Terra. Uma delas é a “velhofobia”. Os memes de velhos “fugindo” de casa dá a dimensão da forma infantilizada com que lidamos com eles. Alguém que não tem mais discernimento, como se todo velho, a priori, fosse portador de Alzheimer ou simplesmente “gagá”.
Existe uma impaciência generalizada, a lentidão típica da idade avançada nos dá gastura, tudo é pra ontem e nenhuma história pode ter mais que umas poucas frases.
Além disso, cuidar do idoso já é uma questão que vai colocar minha geração de cara com a realidade de viver em “comunidades de idosos”, para soar mais simpático. Um tabu ainda que devagar vai sendo quebrado.
Oswaldo Montenegro chega à conclusão de que a idade nos coloca de frente com nossa desimportância. Quando jovens, nos achamos a última bolacha do pacote, que vamos salvar o mundo ou que o mundo tem que nos dar o que “merecemos”. Mais velhos, reconhecemos que o mundo gira, e não é ao redor de nós mesmos.
Junto com toda vitória nossa, enquanto seres que querem ser imortais, ou deuses, sempre vem junto a nossa vulnerabilidade, nossas eternas questões existenciais, a solidão, dores e doenças que não se resolvem numa máquina de ressonância, numa aula de pilates ou dança, numa pílula, ou numa maratona de série da Netflix.
Passa no meu coração a suspeita de que precisamos resgatar nossas individualidades, somos milhões mas somos únicos. Estamos sendo colocados em gráficos tal como produtos em prateleiras.
Parece que perdemos o compasso da existência: o silêncio faz parte da música, ouvir faz parte do workshop da vida e parar, como fomos obrigados agora, é necessário para alinharmos a rota. Se quisermos viver muito e não apenas ficar velhos.
Adorei o texto. Ótimas reflexões. Porém, a minha opção ainda é morrer velha. Mesmo que tenha um fim abrupto como o do Flávio Migliaccio, que se sentiu livre para optar entre viver e morrer.
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