Isso é bom pra quê?

A nossa marca é o saber.

Gosto da palavra saber porque é mais ampla. Inclui o saber acadêmico, o saber ancestral, o saber da experiência, os saberes comunitários e pessoais.

O embate mais atual é entre a ciência academica e o negacionismo e com aqueles que se vangloriam com a ignorância e não vou entrar nesta seara.

A minha questão aqui é com as limitações que nos colocamos com o saber fragmentado e instrumental.

A nossa cabeça ocidental e cartesiana moderna aprendeu a entender as coisas pelas suas funções e utilidades. Queremos saber para que serve cada alimento, cada nutriente, cada técnica de exercício, cada função dos nossos órgãos isolados… Queremos tudo explicadinho pra gente “acreditar”.

Há gente nos explicando atualmente porque é importante e como dormir, respirar e beber água!!!

Não conhecemos nem respeitamos nossa fisiologia, queremos uma solução para cada problema específico como se tudo estivesse agindo autonomamente e de forma desconectada.

A yoga, por exemplo, chegou por aqui e ganhou diversas versões para atender a este nosso modelo. As pessoas muitas vezes querem saber para que serve cada postura sem antes entender a prática como um conjunto: mantras, respiração, asanas e relaxamento e toda a filosofia envolvida. Queremos ir direto ao ponto…

A meditação é uma prática milenar e também nos alcançou num momento de altíssimo stress e ansiedade. Também estamos adequando a técnica às nossas necessidades mais prementes e só foi aceita e incorporada depois de pesquisas dentro dos nossos padrões. Agora pode sentar e meditar…e esperar os “resultados”…

Na alimentação experimentamos o mesmo processo. Buscamos nutrientes, combinações mais propícias pra isso ou aquilo, shakes, dietas salvadoras, e confirmações científicas para cada ingrediente utilizado. Eu adoro saber de tudo, mas tenho buscado me entender neste mar de informações e influências

Transformamos um animal inteiro e integro em partes com nomes próprios. Coxa, sobrecoxa. maminha, picanha, filé.

E o sol? Hoje ele foi reduzido a vitamina D ou provocador de câncer de pele. Aí é demais!

Tudo isso pra dizer que estas instrumentalizações e fragmentacões são úteis, práticas e necessárias, mas podem estar nos privando de experiências mais amplas, completas, individuais e coletivas, transcendentais até, porque restrigimos tudo o que fazemos à sua utilidade e não ao deleite, ao intuitivo, ao autoconhecimento, a uma percepção mais profunda. Cumprimos as tarefas, e damos check e não nos entregamos às descobertas e às surpresas nos processos.

Uma relação com o sol é muito mais do que absorver vitamina D. Alimentar-se é muito mais do que comer, dormir não deveria ser algo tão custoso e difícil, ao contrário, é uma viagem… Exercitar é muito mais do que fortalecer bíceps e tríceps.

Somos integrais, conectados com o todo, uma dor no corpo pode ser a tradução de uma dor na alma, o que é bom pra um pode não servir pra outro.

Viva os especialistas, o Google, os tutoriais, os influenciadores, os programas, as descobertas, este playground de saber, mas:

fragmentar

pode ser útil

mas aliena

conectar-se com o todo

é trabalhoso

mas libertador

por isso perigoso

2 comentários em “Isso é bom pra quê?

  1. Muito bom Lena! Eu sou super pragmática,tendo a buscar coisas que dão “resultado”. Porém, concordo que não dá pra fragmentar tudo, nem tirar do contexto geral, mais amplo.

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  2. Um salve para os formados pelo Google! Sofre é quem realmente aprofundou em algo, estudou, trabalha e as pessoas acham caro ou desnecessário o serviço, pois na internet encontram as informações.

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