Eu e meu mundo classe média ao redor

Este texto é antigo, mas como ainda me representa, quero deixar registrado por aqui, revisto e atualizado. Vai lá:

Fui criada na religião católica, nunca pratiquei, ou pratico dentro das minhas conveniências, e me considero hoje espritualista, tá usando dizer.

Mas ainda assim, carrego as inúmeras culpas que a religião deixou no meu DNA.

De modos que estou sempre me justificando: eu tenho, mas sempre digo que não tenho ou que não tenho suficiente (ainda) ou que tenho mas ajudo os que estão em volta, ou que tudo foi a custa de muita ralação.

Nunca estou confortável no meu status quo, ou vivo ressentida, seja porque acho que não mereço ou porque sou vítima de um sistema que julgo paternalista com os mais pobres e conivente com os muito ricos. O miolo portanto.

Urbanóide que sou, na falta de uma transcendência, ancestralidade, história, tradição, vivo de modinhas: a cozinha agora é assim, agora é assado, a moda é carnaval de rua, é hipster, é cerveja artesanal, é food truck, é visitar o país x ou y. Já “fiz” Europa, EUA, agora é voar de balão na Turquia, agora é América Latina, agora é Oriente. É o faça você mesmo, comércio local, suplemento, a academia, o vinho, o exercício, a série e a música da moda.

A pandemia já está trazendo novos costumes e novas modinhas virão, do que sobrar depois dela.

Sou ou quero ser sustentável, seja lá o que isso signifique hoje. Uma balbúrdia esse assunto. Afinal, defendo o capitalismo e uma hora dessas ele vai ser sustentável.

Acho alguns lugares lindos e quero ir pra lá morar. Muitos realmente vão. Mas não tem liga com nada. Não são pescadores, nunca plantaram, nem sabem nada da cultura do lugar, mas vão dar aulas de empreendedorismo ou simplesmente empreender e alavancar a “atrasada” comunidade local.

Mostrar como se faz.

Quero liberdade, mas também a segurança. O hostel, o mochilão, mas a cama quente, a despensa cheia, a doméstica, a Netflix e o wi-fi na volta.

Tudo nosso é descartável.

Assumo então que meu papel é o de consumidora. Consumir cultura, gastronomia, turismo, moda e dar minha contribuição para a economia crescer e gerar emprego. Mas não gasto muito, porque é feio.

Dentro da minha bolha, criar filho bem é dar boa educação. É o que a gente deixa pra eles. O saber, aquele que ninguém tira. Mas sinto que fica muita coisa de fora, que certamente a vida vai ensinar.

Não tolero ingerência, incompetência e burocracia do Estado. Quero bons serviços, mas não uso quase nada. Banco tudo. Transporte, saúde, moradia, educação impostos a perder de vista, sustento maus políticos. Melhor não tê-los então.

Mínimo, máximo, (P.M.G) ninguém acerta a medida estatal que nos atenda. Um dilema. Mas todos à minha volta tem a solução de todos os problemas, nem que seja matar ou deixar morrer uns. Pivilégio, direito, ó dúvida cruel! Regulação ou laissez faire, gastar assim ou assado, sempre o debate.

Sou o meu trabalho, preciso afirmar isso todo dia e carrego o piano dessa sociedade que não me reconhece.

Vivo com medo. Acesso notícias on line 24 horas, aquele jornal tradicional, acompanho analistas que se multiplicam como gremlins, e é só notícia ruim. Pilantragens de todo tipo, doenças, discriminações, criminalidade, etc. E todos à minha volta repetem o dia inteiro. “Que absurdo!” Absurdo a riqueza, absurdo a pobreza, a corrupção, absurdo a alienação, absurdo, absurdo!! Melhor a gente se proteger de qualquer coisa: da falta, do mosquito , agora da Covid, da violência.

Aliás, sou talhada no senso crítico. Depois de aderir, boicotar e indignar, questionar é a palavra de ordem, nunca a rebeldia, que é muito radical.

O mainstream não é bom, o alternativo também. Odeio ignorância, radicalismos, fundamentalismos, pós verdade, fake news, tenho olho clínico para o certo e o errado, o que tem que ser feito e o que é mal feito. Mas não mexam comigo e com meus amigos!

Não tenho preconceitos, mas…

Ah! As redes! Que delírio! De um tudo, de fotos lindas a teses profundas sobre o que aconteceu agorinha e o que acontece há milênios. Opinião formada sobre tudo. Bons encontros também e todas as novidades. A nossa cara. Novidade! Importa é estar up to date. Tecnologia de ponta, aplicativos, sermos controlados e achando bom.

Nesse rebanho, que é o que somos, não separamos individualismo de individualidade. O que é próprio de cada um. E não é fácil. Nesta ciranda frenética, nesta massificação, na overdose de informação e na luta pela sobre-vivência parar e ouvir o coração está fora de questão. Ou talvez seja esta a hora.

E segue o jogo.

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