
Rubem Alves sempre foi uma inspiração pra mim. E há muitos anos li um texto dele chamado Escutatória, que inclusive circula na internet.
Ele começa questionando porque tem tanta oferta de cursos de oratória e nenhuma de escutatória. E segue: “Parafraseio o Alberto Caeiro: “Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma”. Daí a dificuldade: a gente não aguenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer…”
Nas redes sociais todo mundo tem seu espaço de fala. Tem os que falam por si, os que só repetem a fala dos outros, os que vivem de escrachar, outros de bajular, há os que citam, os que compartilham. Importante é dizer algo. E como não estamos ao vivo, a escuta fica truncada e parece que há uma pseudo permissão pra invadir o espaço do outro com julgamentos, avaliações morais ou até agressões em níveis que não aconteceriam num diálogo tête-à-tête. Podemos também literalmente ignorar as pessoas, passando pelo feed delas sem dar um alô sequer. E existe civilidade também, óbvio.
Nesse ambiente, os perfis pessoais se misturam com os profissionais, os informativos com os de mero entretenimento, os de denúncia e com os de deboche, uma babel completa. O Twitter é um caso a parte, onde existe a lacração, o bate boca, o ativismo, os debates, as soluções, as agressões e o imediatismo.
O silêncio que às vezes acontece numa conversa pessoal não é bem-vindo no ambiente virtual. Precisamos da interação e do engajamento para que os algorítimos nos mantenham “vivos” e conectados e para nos sentirmos amados e respeitados também.
Na conversa pessoal a postura corporal e as feições nos indicam se o papo rola leve, se magoou, se o olhar está longe e o interlocutor perdeu o interesse ou até se está raivoso. Então, existe a escuta auditiva e a escuta através do corpo, que pode ser sutil ou não.
Assim, estamos desenvolvendo literalmente uma nova linguagem, um novo jeito de conversar, principalmente em tempos de quarentena. O whatsapp estabeleceu um novo código de conduta, com seus emojis, os tempos de resposta e de disponibilidade de “ouvir”, responder ou de dar um feed back.
As máscaras necessárias hoje e o kkkkk nos roubaram os sorrisos e as espontâneas expressões faciais que faziam parte de qualquer conversa. Estamos de alguma forma sendo salvos pelas chamadas de vídeo e reuniões on-line, que encurtaram as distâncias geográficas. Além disso, podemos manter contato com pessoas ou grupos distantes da nossa realidade, o que era impossível de acontecer no mundo analógico. Ou ignorar tudo e dar um sumiço sem que ninguém dê fé.
É um exercício muito humano esse. De trocar ideias, dizer, ouvir, contar, silenciar. E quem sabe, nosso maior desafio.
Não sei como Rubem Alves estaria avaliando nossa escuta hoje, não sei como serão a conversa e os encontros quando e se voltarmos a aglomerar, mas tenho a sensação de que sempre falamos mais do que ouvimos em qualquer tempo, plataforma ou lugar.
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Oi, Lena, como sempre vc. acerta em cheio. Não é a toa que existe um ditado:”A palavra é de prata e o silêncio é de ouro”
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