Falta de assunto

Por incrível que pareça é a falta de assunto que me traz aqui. Milhões de coisas acontecendo, mas falta assunto. Aquele desprentencioso, inconclusivo, com silêncios, pausas, expressões faciais, olhares de dúvida e que só se dá presencialmente.

A política e esse governo psicopata, o fecha e abre, o sai não sai, o novo normal, o fogo, o fim do mundo, o feminicídio, o racismo estrutural, o patriarcado, a economia ou a falta dela, crianças e pais enlouquecidos, saúde mental, as fake news, a vacina, as teorias de conspiração, memes e séries.

Isso tudo são pautas e não assuntos. Isso tudo nos impele a ter ou dar opiniões, a indignar, a debater e até a brigar. Faz parte e é necessário, mas é exaustivo, e não nos preenche.

A quarentena nos coloca pautas, já que somos conduzidos por mídias eletrônicas e influenciadores mas para ter assunto, há que se viver. Bater perna, cruzar uma rua, circular numa feira, esperar as crianças chegarem da escola e ouvir suas histórias, entrar numa galeria, visitar alguém, sentar num café sem ser pra usar o wi-fi e trabalhar, ou num bar e curtir um som ao vivo. Ouvir histórias de avós, circular numa livraria, viajar, esperar por um evento, se preparar pra ele, cantar um parabens pra você desafinado em volta de um bolo confeitado. Sentir o sol, a mudança de temperatura, correr de uma chuva.

Atualmente não saimos pra viver, mas para sobreviver. Os que tem que trabalhar in loco, ou os que tem que se abastecer de suprimentos ou cuidar da saúde. Saímos com medo, atiçamos nosso olhar de patrulha em quem usa ou não usa máscara, em quem tem ela no queixo ou em quem está se aglomerando antes da hora. E esfregando álcool em gel freneticamente.

É o medo que dita tudo. Mesmo quem chutou o pau da barraca está se digladiando com o medo, mostrando quem pode mais.

Dizem que a vacina vem aí. Imagino todo mundo saindo como náufragos se debatendo diante da visão de um banco de areia.

Talvez muita coisa siga home office, talvez a Amazon domine ainda mais nossas compras e nossos desejos, talvez sigamos com os deliveries plastificados, talvez sigamos em casa por costume ou com medo das ruas não pelo vírus, mas pelos perigos de uma sociedade bélica e cada vez mais desigual.

Talvez a realidade vá nos doer os olhos da mesma forma quando saimos ao sol depois de muito tempo no escuro. Ou talvez ela seja mais suave do que costumamos ver nos embates virtuais. Talvez a gente consiga transformar o lá fora também num lar como estamos tentando fazer com nossas casas na quarentena.

Não há um antes e um depois, há mudança, sempre.

Lá na frente, teremos muito o que contar desse tempo, a pandemia será um assunto e não uma pauta.

Segundo Viviane Mosé, ” vamos voltar para rua como crianças. Nosso olhar será novo para as coisas do mundo.”

Assim seja!

Enquanto isso…

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