Reconciliação

Fiz um post há um tempo atrás sobre regeneração.

Agora, para este fim de ano , a palavra que me veio foi reconciliação.

Não sei se essas reflexões resolvem ou se as coisas são “resolvíveis” dentro das nossas limitantes e limitadas réguas. Mas acho importante intencionar para termos um norte.

Um ano de pandemia é um teste sem precedentes. Muito medo, mortes, reviravoltas na vida de todo mundo e numa época em que todas as questões humanas estão em xeque. Esse ambiente de insegurança gera muitos embates e vivemos numa gangorra entre dramas e disparates, um bate boca e um meme. Permanecer no eixo tem sido uma tarefa árdua, e difícil encontrar um denominador comum. Todo mundo agarrado nas suas convicções, e a beligerância está no ar. (ou nas nuvens da internet)

Não vejo como avançar sem algum tipo de apaziguamento dos ânimos, nem sei se aguentaremos essa luta ininterrupta, portanto, algum tipo de reconciliação há de acontecer.

E toda reconciliação começa com a gente mesmo, por mais piegas e lugar comum que isso seja ou pareça. O outro costuma ser reflexo do que nos agrada ou nos incomoda. Incomodou, doeu, leva pra casa que é seu”, diz a expressão dos antigos, adotada por terapeutas. E outra: quando João fala mal de Pedro, sabemos mais de João do que de Pedro”. (vídeo abaixo, assiste lá)

Então, o outro pode ser uma escola de autoconhecimento se a gente andar mais atento e conectado. E acredito que isso vale pra tudo: para nossas relações pessoais, para a política, para questionar nossas crenças e valores.

Todo mundo anda cheio de certezas e guardado em caixinhas: se sou da ciência não tenho espiritualidade, se sou da espiritualidade não posso sentir raiva, medo, indignação. Se sou feminista não posso relaxar e fazer concessões senão perco o crachá, enquanto o patriarcado titubeia mas não rompe a caixa da truculência e de todo tipo de abuso. Se sou de uma linha politica tenho que marcar posição sem dividir espaços. Ou nos atacamos mesmo defendendo a mesma causa. Andamos sempre em ovos.

Somos seres complexos, mas escolhemos uma versão de nós mesmos e lutamos para levá-la a vida toda a ferro e fogo. Portanto nunca relaxamos e esperamos o mesmo dos outros. Outra visão é a de que a nossa essência é uma só, mas vamos ficando cobertos de camadas que adotamos para nos proteger, pertencer, ou para sermos amados. O fato é que mudar ou remover camadas significam movimento e movimento é vida.

Cada um pode ter um ou mais de um meio de se reconciliar com si próprio, com algo, alguém ou com um episódio da vida. Seja perdoando, dizendo, escrevendo, meditando, rezando, em algum tipo de terapia, fazendo ou curtindo arte.

Não é hora? Quando será então? É definitiva? Não sei e não saberemos se não tentarmos ou esperarmos o momento certo que nunca chegará. Talvez seja uma prática a ser renovada de tempos em tempos, talvez seja um processo que exija tanto empenho quanto o que dedicamos às lutas diárias.

Mas quem sabe essa reconciliação pessoal possa nos trazer mais leveza, impactar nas nossas escolhas e transbordar para a reconciliação com os outros, com o espaço que habitamos fora de casa ou no ambiente virtual, com a natureza e seus ciclos, com as diferenças, com as sabedorias tão enriquecedoras que abandonamos por termos optado pelo descartável e com a cura real de que tanto precisamos.

Regenerar, reconciliar, vamos agregando intenções, mas como disse Emicida outro dia, citando um ditado africano, enquanto você reza, vai fazendo.

P.S. A propósito, o melhor auto de Natal deste ano é o documentário AmarElo, do Emicida. Inspiração de reconciliação pelo resgate da historia, afirmação, ocupação de espaços e beleza artística.. Confira, se dê esse presente.

tias que não mandam só correntes e fake news no zap

Um comentário em “Reconciliação

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