Nós e as coisas

Minha sábia sogra dizia: “sou pobre mas não gosto de porcaria”.

Lembrei dessa lição depois de ler o livro A mágica da arrumação da Marie Kondo e com as mudanças de hábitos de consumo que venho adotando.

Final de ano sempre faço “limpas” nas minhas coisas mas esse ano já fiz várias. E percebi que a minha casa parece um buraco sem fundo, já que não tenho comprado quase nada, mas sempre há o que tirar.

A pergunta que a autora faz e que é a chave do método de organização dela, embora aparentemente tola, é para mim, e acredito que para a maioria das pessoas, a mais difícil: “Isso te traz alegria? Mas responder, conforme ela propõe, sem aquelas racionalizações tipo, ganhei de fulano, é antigo e valioso, custou caro ou barato, tenho desde criança, posso precisar um dia, a moda volta, vou emagrecer e caber ou aquele nosso eterno sentimento de escassez e carência que nos empurra para o consumismo, é um baita desafio. Trata-se de sentir mesmo, o que para nós, cartesianos e excessivamente mentais é algo desafiador. A pergunta tira a gente do automático.

Outra mote do método dela é a gratidão, palavra tão na moda hoje em dia e portanto tão banalizada que já virou alvo de deboche. Mas faz sentido. Se desfazer das coisas, segundo ela implica também em agradecer pelo o que aquele objeto nos proporcionou e assim se desapegar e abrir espaço para o novo ou para o vazio, porquê não?

Não se trata de abrir mão de tudo nem do que é sentimental, mas colocar essas coisas no lugar de importância e destaque que elas merecem e não amontoadas junto com todos nossos milhares de cacarecos. O destralhe não é um fim em si mesmo.

Lidar com nossa casa, (que é o que mais temos feito em tempos de isolamento), e com nossos objetos com esse viés pode ser uma excelente prática, já que estaremos nos conectando com o momento presente, com o que é importante pra nós hoje, e ao mesmo tempo com nossas memórias e com o que queremos para o futuro. Tem sido meu exercício nesse período do ano.

Quando passamos por um processo ao menos parecido com o que Marie Kondo propõe, a consequência é ficarmos mais seletivos, pensar que quando compramos algo barato demais, com certeza vai ter exploração de trabalho, ou material de baixa qualidade, ou será descartado em pouco tempo, gerando mais lixo, que é tudo o que não podemos fazer. Ou compramos mais porque está “baratinho” e a vantagem da economia se perde.

O contrário disso não é defender o consumo elitista, de luxo ou produtos talhados no greenwashing, nem afirmar que haja relação direta entre preço alto e qualidade, mas termos em mente a diferença entre preço e valor e sabermos de onde vem, como é produzido e para onde vai o que consumimos. Complexo, mas por isso a necessidade de reduzir.

Vivemos a era da obsolescência programada em que todo produto é feito pra durar o tempo necessário para a indústria te empurrar uma “versão mais atualizada” dele, sem grandes diferenças ou te seduzir com milhões de novidades. É o nosso capitalismo atual: consumo pelo consumo, afinal, “você merece”.

E defendemos essa lógica do “barato que sai caro” com a ideia de que mais pessoas vão acessar os produtos, se forem bem baratinhos. Mas não é por aí. Todos somos vítimas desse engodo, todos somos engolidos pelas propagandas, todos somos responsáveis por essa ciranda enlouquecida em que nos metemos e que se volta contra nós.

Então, a destralhe e a arrumação não servem apenas para aprender com os especialistas como dobrar roupas ou para comprar mais objetos de organização, mas mudar a forma como lidamos com as coisas, que acabaram nos dominando.

Comprar é bom, é necessário, nosso sistema infelizmente se baseia nisso, mas não merecemos as porcarias que estão nos empurrando, não podemos nos dar ao luxo de fechar os olhos para o lá fora que na realidade não existe, não podemos permanecer infantilizados nos iludindo com os mantras envolventes da mídia ou com as falsas necessidades.

Minha sogra era pobre de recursos mas rica em sabedoria e valorizava tudo que arduamente adquiria. Acho que a gente devia fazer o mesmo. Tudo o que compramos significa tempo de vida de cada um, de quem compra e de quem produz e o desgaste do meio ambiente tanto na extração da matéria prima como no descarte. Não é pouca coisa.

Um comentário em “Nós e as coisas

Deixe um comentário