Senta que lá vem história.
Quando criança, estudei em uma escola de freiras e ainda era ditadura no Brasil. Me lembro da obrigatoriedade de, todos os dias, antes de irmos para a sala de aula, termos de nos enfileirar no pátio para cantar o hino nacional e hastear a bandeira. A orientação era não nos mexermos durante o evento. Torturante.
Tínhamos aulas de O.S.P.B. (Organização Social e Política Brasileira), que pode soar pelo nome como uma aula de entendimento do Brasil , mas não passava de um ufanismo e uma lavagem cerebral pseudo patriótica.
A guerra fria estava no auge e a polarização era global. Comunistas X capitalistas.
Na adolescência, vivi a efervescência da abertura. Do retorno à democracia. ” a volta do irmão do Henfil, com tanta gente que partiu, num rabo de foguete”… Que alegria, a política voltou à pauta, só se falava nisso, vislumbrava-se um novo país. Brizola, Darcy RIbeiro, Fernando Henrique, Ulysses Guimarães, Lula, artistas exilados, enfim, retomamos às ruas, aos debates, aos projetos, aos sonhos. Intelectuais, políticos,igreja, proletariado, artistas, pareciam caminhar na mesma direção, mesmo com as diferenças.
Mas temos uma trajetória de elitismo, dominação, escravidão, e extração desenfreada muito mal resolvidas. E uma história muito mal contada também.
E a conta chegou.
Enquanto cada um estava no seu quadrado, toleramos. Agora que todos reivindicam seus espaços, o bicho pegou.
Nesse caldo, acrescenta-se o fundamentalismo religioso, o falso moralismo e as redes sociais.
Usa-se o patriotismo como algo bom a priori, mas o que se defende na realidade é um patrimonialismo, uma perpetuação dos preconceitos, um medo de perder favorecimentos seculares e aquela filosofia dos cidadãos de bem de que melhor a pobreza e a desigualdade porque posso manter meu status, mas fazer caridade e ficar bem na fita. As pessoas empoderadas, autônomas, saudáveis, com seus direitos respeitados não interessam a nenhum sistema. Meros comunistas a serem combatidos.
Tendo vivido o ocaso da ditadura e a restauração da democracia, vejo com tristeza esse saudosismo de um período que era pra ser lembrado apenas nos livros de história e não ser repetido. Faço parte da elite, sempre fiz, mas não compactuo com o uso do patriotismo como instrumento de segregação e negacionismo, mesmo com muitas aulas de OSPB.
Observo um resssentimento generalizado de não termos mantido um “status quo” confortável pra uns, nem de não termos avançado nas pautas da desigualdade por outros que se arvoram em defensores dos pobres e oprimidos.
Dentro disso tudo, vivemos uma pandemia que expõe de forma avassaladora todas nossas idiosssincrasias e nossa inabilidade pra focar apenas nas vidas e não nos nossos interesses comezinhos, ideológicos e individualistas.
Reconheço meu limitado “lugar de fala”, e, embora seja democrática e defenda a livre manifestação, quando vejo manifestantes enrolados na nossa bandeira, sem máscaras, defendendo a anti ciência e o retorno de um tempo de trevas, num quadro exponencial de mortes, lutos, sequelas e quebradeira, só me ocorre constatar, desolada, que aquela bandeira que vi ser hasteada diariamente na minha infância, virou uma mortalha.
Foi um feed-back da minha vida tb. Como as coisas se misturaram, inverteram de valores, confundindo cada individuo. Realmente a nossa bandeira virou pano de chão!!!!!
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Ufa!!!!!Sem comentários, já diz tudo!
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