Pedagogia afetiva

Minha mãe é pedagoga. Ela dizia que fez pedagogia porque queria estudar e esse era o único curso que tinha à tarde, horário possível pra ela naquele momento. ( esse é o aprendizado maior da maternidade: dançar entre o idealizado e o possível).

Ela queria estudar, ponto, o que já foi uma conquista para a época, sabemos porquê. Ela reduziu a escolha ao horário do curso, mas sabemos também que era o curso talhado pra ela.

E ficou “impossível”. Era Piaget pra lá, Piaget pra cá e meu irmão implicava, dizendo que ela vivia testando as teorias na gente, os filhos. Aguentou o tranco dos ciúmes do meu pai e exerceu a profissão com esmero numa escola perto da nossa casa.

Mas ela já tinha algumas teorias e práticas “pedagógicas” mesmo antes de se formar. Acreditava na comunidade como base da educação. Nossos aniversários eram coletivos, as roupas circulavam de um para outro, a rede de vizinhança era esteio importante. E por aí vai. A lista é grande.

E uma dessas teorias dela era: escola boa é a perto de casa.

Analisando hoje essa máxima, consigo entender seu sentido. Estudar perto de casa, significa desenvolver algo hoje raro.: autonomia. Eu sempre fui pra escola sozinha, à pé, e com colegas que moravam próximo, podia ir na casa das colegas fazer o tal “trabalho de grupo”, que não existe mais. Estudar próximo de casa permitiu que eu, ainda criança, levasse e buscasse meu irmão mais novo todos os dias, nesse período que ela fazia faculdade e trabalhava.

Estudar perto de casa pode significar um vínculo mas próximo com a realidade extra currículo, extra classe. As escolas públicas se baseiam nos endereços pra seleção de seus alunos. Educação não se limita ao que acontece dentro das salas de aula, mas o que ela agrega para a sociedade como um todo. Óbvio que a realidade de violência em que vivemos não permite tanta autonomia. Mas não acredito em fim da violência sem estarmos ocupando os espaços públicos.

Certo ou errado, não sei, mas faz algum sentido. Vejo hoje um apego às “linhas pedagógicas” e ao nível do ensino apenas para escolha de escolas, e ok. Mas as crianças muitas vezes saem de um bolha e entram em outra, sem terem contato com a realidade em volta. E estamos vendo mais do que nunca que conteúdo apenas não resolve.

Ainda hoje, por exemplo, nossos filhos quase não veem negros nas suas escolas. Ainda são vistos apenas nas funções de domésticas e porteiros. Quando vamos romper as bolhas e sair do discurso e das boas intenções teóricas? São muitas questões, mas é fato que ainda reproduzimos o apartheid social na prática educacional, como em todo o resto.

Não quero adentrar no complexo mundo da educação, mesmo porque pouco sei, seria leviano me estender.

Só queria registrar que minha mãe tinha utopias pedagógicas e sociais que carregou pela vida afora. Aplicou, defendeu, se frustrou também como toda mãe, profissional ou cidadã. Carrego essas utopias, como fardo ou como alento, não sei.

Um comentário em “Pedagogia afetiva

  1. Adorei esse. Minha mãe sempre falava dessa teoria da vovó….e realmente ir a pé para a escola era a melhor coisa! Ver a cidade, passar na papelaria (rs), ficar um pouco a mais conversando… 🙂

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