Desacorçoada

Esse último mês foi especialmente conturbado na minha cabeça e no meu coração. Um ano e três meses de pandemia, isolamento, lutos, falta de perspectiva de arrefecimento da pandemia, política estressante, embrutecimento, sensação diária de medo, raiva e tristeza.

Um enfaro de telas, programas de culinária, séries e lives. Alguns perrengues domésticos, batons vencidos, roupas empoeiradas, saudades de muitas pessoas. Saudade até de ter um evento e decidir se quero ir ou não.

Do alto da minha situação de extremo privilégio, e sempre na vibe da gratidão, me permito também sucumbir.

Assumir isso alivia. Negar é tampar o sol com a peneira.

Embora a internet esteja reinando, a leitura, mesmo escassa, é um conforto.

Depois de ler o livro mais indicado do momento, Torto Arado, e sem fôlego para as grandes obras, começo de novo a zapear pelas crônicas. Já falei por aqui do quanto gosto delas. Martha, Maitê, Cris Guerra, Leila Ferreira, Prata, Carpinejar, Fernandinha, os clássicos, Mendes Campos, Fernando Sabino, etc.

Ler crônica é como estar sentada numa mesa de bar conversando com amigos. Tenho essa sensação. Um bom cronista denuncia nossas hipocrisias nas entrelinhas, tem lirismo, humor e ironia. Não quer tecer teorias, teses, defender princípios ou ter razão. Daí a diferença das conversas nas redes sociais que exigem lacração, posicionamentos, doutrinação ou patrulha, tudo em busca de likes e engajamento.

Em tempos de distanciamento, é uma forma de estar próximo de pessoas que se permitem sentir, vasculhar a alma, rir de si mesmo, se entregar. Nesse ponto também é diferente do narcisismo midiático.

A morte do ator Paulo Gustavo também contribuiu para meu estado de espírito ultimamente. Ele era um cronista performático, não ficava em guetos, não exibia sua generosidade e principalmente, nos fazia rir muito. Debochava de si, das situações cotidianas, não ficava apontando dedo, e não tinha vergonha de expressar seus afetos, que eram muitos. Sua morte espalhou mais tristeza.

Perguntado numa live se tinha cabimento o humor num momento tão tenso e pesado, ele disse que sim. O humor eleva as pessoas, cura e alivia, disse. Essa era sua missão, concluiu, que cumpriu com esmero.

Por isso me recuso a admitir que o Brasil se resuma a esse espetáculo de horrores que estamos assistindo.

De qualquer forma, reconheço que política e relações sociais não se “resolvem”, tudo é caminhada, com idas e vindas, avanços e retrocessos e às vezes até ruptura, tomara que não.

Quero crer que o momento de algum diálogo vai chegar, que um ponto de intercessão vai unir as pessoas em nome da nossa própria existência.

Mas nesse momento me permito jogar a toalha e não criar muitas expectativas. Ser surpreendida por pequenos avanços e não me cobrar muito. Me recompor.

Percebo os cronistas também desacorçoados, mas um bom cronista também enxerga beleza e graça brotando nas pequenas coisas. Ou apenas chora e sonha. Nenhum mal nisso.

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