3 anos

Pai, faz três anos que não está fisicamente entre nós. Uma eternidade que passou tão rápido.

A saudade continua.

Aconteceu tanta coisa!

Mas tanta coisa!

Sim, sua biblioteca não está mais lá. Foi sofrido, difícil, complicado e polêmico, como tudo na nossa casa.

Era sua. Agora ocupa novos espaços, e novas mentes.

Sua casa de campo também acolhe novos moradores.

Sua Espichadinha sofreu. Como sofre. Caiu, levantou, caiu de novo e não se levantou mais.

Silenciou também. E seu silêncio me apunhala. Quantos tombos ela levou pela vida afora! E segue se adaptando às novas limitações.

Você não gostaria de vê-la assim, com certeza. Tentamos cercá-la de todo o cuidado e carinho que ela merece.

Estamos passando por uma pandemia, dá pra acreditar? Nos isolamos, nos separamos, tivemos perdas tristes e trágicas. Tempos muito difíceis mesmo.

E muitas mortes pelo país afora, péssima gestão interna desta crise, medo e ansiedade por uma vacina, nosso alvará.

E seguimos literalmente catando cavaco ainda. Testando limites, recomeçando, reabrindo, ressocializando. Novos aprendizados.

O Brasil, ah o Brasil, nem te conto! Entregamos para um lunático, cercado de lunáticos medievais. Um retrocesso em todos os campos. Fico pensando: qual seria hoje seu grau de otimismo neste momento, se estivesse entre nós?

As perspectivas são obscuras, um dejà vu talvez nos espere, conturbado, com certeza. Mas não dá pra cravar prognósticos neste momento. Fatos novos acontecem de hora em hora praticamente.

Um cansaço generalizado. Um desejo de voltar à vida.

E sim, novas vidas chegaram pra preencher nossos corações e nos trazer alegria e esperança. Serena, que chegou a sentar em seu colo, João, Leo e Davi.

Seus netos foram e são resilientes e combativos. Sofreram, sofrem, mas seguem sendo luz e buscando caminhos. Rosa e Anita, as caçulas, não perderam a curiosidade e a ingenuidade de quem acredita, ama e se entusiasma com as pequenas coisas.

Um casamento desfeito, e não temos mais o Alexandre no G4, infelizmente. Nês recomeça com altivez.

Seus filhos, noras e genros vão envelhecendo (até que bem, posso dizer) e vivendo um dia de cada vez. Ora cansados, ora indignados, ora apegados nas miudezas e nas pequenas expectativas e alegrias pra passar por esse vendaval e esse isolamento com dignidade e amorosidade, pelo menos entre nós.

Como vai ser o tal “novo normal” não sabemos, como sairemos das nossas enrrascadas internas, também não.

Mas quem algum dia soube? Você pelejava para saber tudo, mas entendia que não sabia muita coisa e isso te movia.

A curiosidade, a consciência de que tudo pode mudar, a impermanência, essa dança da vida, o amor por ela, as lições que tirou de todas as crises, a impaciência às vezes, o otimismo pé no chão, tudo isso faz parte de um legado que com certeza cada um de nós, em algum grau carrega.

Tem nos servido muito, pode acreditar. Obrigada.

4 comentários em “3 anos

  1. Que lindo, Lena. Fiquei emocionada e hoje compartilho do mesmo sentimento. Todos os dias ao encerrar uma das coisas do meu pai vem o aperto no peito. Uma sensação péssima de gerenciar, decidir, mudar de lugar, extinguir o que era de tão precioso para ele. Que vontade enorme de conversar, ouvir a voz, a opinião, o sorriso. Que Deus nos proteja pelas perdas, pela atual realidade, pela desumanidade e injustiças.

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