me (re)conhecendo

Quase nunca durmo tarde

quase sempre acordo cedo

sou do dia, então

mas gosto da lua também

sempre cozinhei

agora bem mais

diferente, explorando a culinária vegetal

nunca consegui seguir a risca nenhuma receita

assisto e assisti ao longo da vida todo tipo de programa culinário

mas a cozinha é meu ambiente de experimentação e intuição

amo frutas, purê de batata, farofa, um cafezinho, e tudo que leva coco

caminhar, ver e sentir água corrente é um chamado constante

praia então nem se fala

nunca fiz grandes planos

o único grande plano foi gerar meus filhos, desejados e queridos

um plano realizado com suor, lágrimas e muita, muita alegria

uma relação amorosa e de eterno aprendizado e agora de companheirismo também

um plano compartilhado com o pai, vós, tias, amigas, irmãs e cuidadoras

sempre fui reservada, conversava muito com meus pais

tenho poucas e boas amizades

minha relação com irmãs, irmãos, cunhadas e cunhados são um caso à parte de parceria, amizade e amor

Mas considero a família o calcanhar de Aquiles das nossas relações

Ainda sobre família, fui criada em duas, e honro ambas

Ficar sozinha não costuma ser um problema

gosto de assistir a entrevistas

a vida dos outros me instiga e muitas vezes me inspira

ou serve pra sentir inveja

a grama do vizinho, né?

os oito anos de yoga me ensinaram muito

e me colocou em contato com ferramentas

que uso até hoje

ando experimentando outra modalidade de exercício

embora yoga não seja só exercício

e já passei também pela natação

o hábito da leitura sempre foi constante

hoje em dia nem tanto

desejo retomar

escrever atualmente é hobby e terapia

internet e rede social me conquistaram

mas tento não ser abduzida por completo

portanto, nada é constante e pra sempre

O meu maior “pra sempre” até agora, além da maternidade,

é meu casamento

que muda também com o tempo como mudamos todos,

empaca, avança, e se recompõe

um desafio diário, mas ainda prazeroso, que escolho preservar

Sempre resguardei minha individualidade como tento respeitar a dos outros

auto estima é uma gangorra

às vezes on, às vezes off

trabalho remunerado foi por precisão e gosto, não por propósito, mas com empenho

hoje minha vida não entra nas contas do PIB

Já experimentei “de um tudo” de trabalhos manuais e artesanatos, fiz diversos workshops e encontros sobre vários temas e tudo me enriqueceu.

Admiro muitas coisas feitas por aí e que não são monetizadas. Ai de nós se não fossem elas. O dinheiro salva, claro, mas pode nos embrutecer também

Nessa era de muito conhecimento estruturado, ainda me permito, com pudores, dar pitacos sobre muitos temas sobre os quais não sou especialista.

apenas observo muito e não abro mão disso

A política e os eventos e questões sociais me mobilizam, e me paralisam também

meu engajamento sempre foi e é pouco e pontual

Tento levá-lo para a minha vida,

o que já é bem difícil, tendo em vista que, no ambiente de privilégios em que vivo

é bem fácil chafurdar no foda-se

Sou um pouco “avulsa”, grupos fixos só por contingência ou de passagem

defeito, não sei, só sei que é assim

Detesto cheiro de filtro solar e de repelente,

e cheiros muito fortes em geral

barulho demais me tira do sério

o silêncio me atrai mais

Nunca fui jardineira nem plantadeira, carrego esse recalque

mas gosto das plantas plantadas e do mato intacto e natural, admiro quem planta e cultiva

Sempre fui básica, cara lavada, mas mesmo que não pareça

sou vaidosa, do meu próprio jeito

Gosto do cinema brasileiro

da literatura brasileira,,

da música brasileira

das paisagens brasileiras

não por ufanismo, que nem está cabendo mais,

mas porque admiro mesmo

Arraial d’ Ajuda e Tiradentes foram os lugares que mais visitei e curti

e sempre gosto de voltar

Reconheço todas as minhas regalias

sempre fui grata pelas oportunidades que recebi, conquistei e aproveitei, pela minha saúde até aqui, um tanto herdada e um tanto batalhada, e não lamento o que deixei passar

não sou dessas que diz que se arrepende apenas do que não fez

O que não fiz foi porque não pude, não dei conta, não era hora, ou não quis

e tudo bem

Sou “ciscadeira”, nunca fui a fundo em nada, meus interesses são cíclicos

Vivo a idade que tenho, tem outro jeito?

mas me incomoda os rótulos que vem junto com a idade, (embora não esteja oficialmente na cronologia da terceira idade ainda)

Por exemplo, embora a longevidade seja festejada e desejada, na prática a velhice é rechaçada ainda e tudo o que acontece depois de certa idade é colocada na conta dela, e não numa mera escolha como todo mundo faz.

Da mesma forma que já me incomoda um pouco a positividade tóxica que se quer impor ao envelhecimento. Ok, temos mais recursos, informações e instrumentos para envelhecer melhor, mas nem tudo é pra todo mundo. A padronização de condutas não me interessa.

Aprendi que a passagem do tempo não nos livra dos medos e das inseguranças, ao contrário.

Sou seletiva, gosto mais do dia a dia, de encontros pequenos e dos pequenos rituais, mas reconheço a importância dos eventos festivos mais grandiosos, ou “socialmente impostos”. Esporádicos.

Tomo cerveja, vinho, gosto, mas não extrapolo. Detesto passar mal depois. Não acho que vale a pena.

Bebedeira alheia não curto. Acho, (desculpe o trocadilho), um porre.

Não sou extrovertida e efusiva, mas me alegro com frequência e hoje aceito e acolho mais tudo o que sinto. E sinto muito.

Religião, nenhuma no momento, embora ainda carregue bastante a culpa cristã.

Há figuras religiosas que inspiram. Sejam da Bíblia ou atuais e seculares e de outras crenças também. Mas não sigo dogmas.

Fé?…..Espiritualidade?…. Não sei. A minha espiritualidade talvez seja a busca por mais compaixão e menos pena, por mais paciência, pela sabedoria de perceber quando agir, brigar, quando se abster ou mudar de rota.

Também é aceitar minhas limitações e a dos outros, celebrar, já que a alegria também é um ato de fé, acho.

Entram aí ainda o respeito por todos os seres vivos, pausas de conexão com o vazio e o nada. Sair do automático, de todos os excessos que sufocam às vezes. Transcendência, se existe e já corri atrás, não alcancei ainda.

Sou uma pessoa comum e sem grandes arroubos.

Um ser em construção e desconstrução constantes. Um paradoxo mas é assim que me sinto viva.

Nem luxo, nem lixo

Como vai você?
Assim como eu
Uma pessoa comum
Um filho de Deus
Nessa canoa furada
Remando contra a maré
Não acredito em nada
Só não duvido da fé

Não quero luxo nem lixo
Meu sonho é ser imortal meu amor
Não quero luxo nem lixo
Quero saúde pra gozar no final

da mais querida de todas, Rita Lee

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