Desde criança, na escola, em casa ou pela televisão, ouvia falar da Amazônia e de sua importância. Aquele velho jargão, “pulmão do mundo”, uma daquelas frases típicas do nosso utilitarismo. Sempre ouvi alertas sobre os perigos de sua extinção e de toda diversidade envolvida.
Esses dias, estive em Alter do Chão, no Pará. Um vilarejo no meio da imensidão do Rio Tapajós.
Foram só sete dias e no esquema de turismo, logo, o que vi foi apenas um mínimo recorte, e seria leviano fazer generalizações, tirar conclusões e dar qualquer parecer, longe disso. Mas é um pequeno intensivão sobre os rios e a floresta, que eu só ouço falar pelos jornais.
Me propus, com esforço, a conhecer, apreciar e aprender, tentando abstrair das terríveis e tristes notícias envolvendo toda aquela região.
E me emocionei percorrendo o rio de lancha, descendo em suas praias de areias brancas, comendo seus peixes, sim comi peixes, e ouvindo as histórias e aprendendo com os barqueiros sobre toda a dinâmica daquele lugar.
Aprendi que o Rio Tapajós, com suas águas cor de mar, é que manda. Seis meses ele apresenta suas areias, seis meses ele alaga tudo, as praias e qualquer coisa que tiver em suas margens.
Notei que todas as pessoas que me informaram sobre isso, em terra firme ou na água, diziam num tom de naturalidade. É assim, ponto. Não ouvi ninguém amaldiçoando o rio, ou o lugar por conta dessa realidade. E não poderia ser de outra forma. O rio é imenso, imponente e manso e impossível de ser contido como fizemos com os nossos por aqui, cimentados, tampados e encolhidos, e vai subindo devagar, dia a dia. E ele é adorado. Mais uma vez, foi o que vi e ouvi nesses poucos dias.
Tivemos tempo e disposição para fazer um longo passeio pela floresta, guiados por um indígena morador de uma comunidade ribeirinha, e ele simplesmente é uma enciclopédia ambulante. Conhece todas as árvores, plantas, animais, perigos, as ervas, a rotina e a vida daquela comunidade e não sonega nada. Expõe tudo. Também demonstrava orgulho de tudo o que tem lá, ciente da suas responsabilidades e de sua importância.
Me comoveu o sentimento de pertencimento das pessoas daquele lugar. Eles tem agora internet, moto ou um carro, celular, jogam futebol, torcem por seus times, mas tudo isso não tira deles o vínculo com suas origens, sua ancestralidade e sua ligação com o lugar. Ainda.
Sete dias por ali é suficiente para ouvir e aprender um pouco de um rico vocabulário. Todos os nomes desde lugares a comidas, plantas, animais, quase tudo vem da ” língua indígena”. Tucunaré, jutaí, taperebá, pracajá, tucandera, chibé e por aí vai. Um “Aurélio” desconhecido por nós.
O sol, o calor, um caso à parte. Chegamos lá achando que íamos tomar banhos de sol como se estivéssemos em nossas praias. Ledo engano. Ainda mais agora, depois de quase dois anos enclausurados nas nossas caixas, no home office e já sem melanina. E não tem como fugir. O filtro solar é insuficiente, é preciso também panos e chapéus. É a linha do Equador, cara pálida.
Ainda estou absorvendo e assimilando o que experimentei lá e não cabe tudo aqui. Mas já reconheço que foi uma experiência única e também um tapa na cara da nossa arrogância, achando que sabemos tudo pela internet, que só nosso “way of life” é bom e serve pra todo mundo, pelas notícias enviesadas, que constroem uma caricatura e desrespeitam e aniquilam saberes tão importantes. É só esse juízo de valor que quero deixar aqui.
O que vai ser feito, o que precisa ser feito, quando, como, por quem, humildemente não sei. Talvez conhecer com cabeça e coração abertos seja um bom passo, sem aquele olhar de empreendedor, salvador ou consumidor.
Por hora, só agradeço. Vivi pra conhecer.
Mais uma vez… Muito bom texto, Lena. Me causou uma vontade de também ir aprender um pouquinho. Parabéns!! 😘 😘
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